Crónica de uma morte anunciada - Gabriel García Márquez

Pedro Farinha
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Crónica de uma morte anunciada - Gabriel García Márquez

Postby Pedro Farinha » 10 Apr 2010 18:16

O sol, uma pedra plantada no horizonte. O verde baço das árvores imóveis debaixo de um vento parado. A água das ondas paralisada no momento perpétuo, com a fímbria das ondas cheia de gotículas suspensas na imobilidade do momento.

A morte, mesmo quando anunciada, chega num momento preciso. Há sempre um instante onde tudo pára, onde o corpo se apercebe que não mais o contacto com outro corpo. Onde a saudade da textura da pele e do toque dos dedos começa a doer, sabendo que irá doer para sempre, porque nunca, nunca mais.

Os olhos permanecem brilhantes, capturado na fragilidade do momento o último brilho, mas já não cintilam, olham paralelos ao infinito para lá do que existe, olham para o outro lado, o lado do que não chegou a existir, ou apenas existiu na efemeridade de um momento pontual.

O peito rasga-se de dor e há um aperto que começa no estômago e sobe até à garganta imobilizando as palavras que poderiam, uma última vez, quererem formar-se, esgrimir argumentos ou perguntar apenas: de certeza?

Mas a morte, mesmo quando anunciada, não se compadece com a ausência das palavras que ainda não foram ditas. Elas ficam ali, cordas vocais vibrantes, os lábios a desenharem-nas no ar, mas tudo isso esmagado pelo cinzento de pedra que se abate sobre o corpo.

As nuvens caiem no solo, desfazendo-se em novelos de algodão, cobrindo a estrada de um pó branco de nuvem que a ausência de aragem, faz restar no preciso local onde se desfizeram.

As palavras escritas no papel, essas perduram, mas as memórias deformam-se, contraem-se, perdem o viço das coisas vivas e ganham o tom sépia do passado que interrogamos se alguma vez existiu.

E a morte, de tão anunciada, chega mesmo assim inesperada. Imobiliza o tempo e o vento morre também.

Os dedos inertes. Os lábios tão frios. As pernas e os braços inúteis por não te poderem envolver uma vez mais. Uma cova no peito, do formato da tua cabeça, fóssil recente onde ecoa o bater de um coração distante.

E o corpo estrebucha uma vez mais – Vem! – gritam as entranhas. Vem resgatar-me a esta morte tão anunciada e tão inusitada. Para que o vento possa correr entre as árvores, bailar nas folhas e mergulhar nas ondas uma vez mais.

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Ripley
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Re: Crónica de uma morte anunciada

Postby Ripley » 11 Apr 2010 06:32

Pedro, conseguiste (re)criar imagens fortes que descrevem uma dor mais forte ainda.

Impossível ficar indiferente a este texto.
Bonito, sim, como tantos dos teus textos. Mas carrega uma tristeza pesadíssima, um sufoco, um nó na garganta que a água não alivia, uma sensação de que o mundo deixou de girar, de que o rochedo onde pensávamos estar firmemente ancorados se esboroa sem aviso, sem hipótese, sem perdão, e que no momento em que o apoio nos falta vemos por baixo de nós o abismo e nos apercebemos de que não há remédio nem salvação. Só a queda infindável no negrume, vácuo criado pelo que deixou de existir. E o silêncio.

Dor cristalizada num momento do tempo que se torna eterno, no "infinito para lá do que existe".
Beleza descrita na descrição da dor.
Beleza, sim. Mas acima de tudo dor.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]


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