A tua irmã casou, o teu pai morreu

Pedro Farinha
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A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 04 Dec 2005 22:08

[size=150]A tua irmã casou, o teu pai morreu[/color]
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1ª Parte
Mãe, sete anos se passaram
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Olho para os teus olhos vestidos de preto, para a tua roupa de luto vestida. Mas o preto dos teus olhos não é o negro da noite nem trazes o luto no olhar. Existe no entanto um brilho, um brilho que eu já não via há muitos anos, há muito mais anos que os anos, sete, que não te via a ti.

O meu olhar desce-te para as mãos que trazes descaídas ao longo do corpo, e as minhas mãos anichadas nos bolsos sentem um ímpeto de saltarem para as tuas. O meu corpo sente um apelo de se aninhar no teu seio farto. Os mesmos seios que num dia longínquo me deram de mamar.

Quedamo-nos parados a olharmo-nos. Passaram sete anos. Sete longos anos.

Continuas parada à porta da entrada sem me convidares a entrar nem dizeres o que quer que seja. Eu hesito, saí de casa faz sete anos com a raiva a percorrer-me as veias e um desdém sem fim por ti. Mas nunca deixei de te amar pois nunca se deixa de amar a nossa própria mãe.

Os teus olhos secos continuam-me a fitar enquanto me dizes:

- A tua irmã casou a semana passada, o teu pai morreu ontem.

Assim: como se as duas coisas estivessem relacionadas ou como se nesta simples frase pudesses contar a história desta família desde que fugi até hoje. Como se pudesses numa frase resumir sete anos de vida, que por muito insignificante que seja, teve os seus períodos de tristeza mas de alegria também. Durante este sete anos, enquanto eu crescia e me fazia homem, tu continuaste a lavar a casa – pobre mas honrada, a mimar a minha irmã e, quase de certeza, a suportar os humores do meu pai.

Olhas-me nos olhos, para ver o efeito das tuas palavras na minha face. Nada disto é novidade para mim, se o fosse não estaria aqui. Mas ainda é muito cedo para te contar, mãe... preciso de saber quem és.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 05 Dec 2005 20:00

Por vezes, raras vezes, o meu pai levava-me com ele para a obra.

Primeiro começou como uma espécie de castigo, face a maus comportamentos ou de receios de eu, na ausência de actividade, me pudesse desencaminhar. Depois era a avidez de metade da jorna que eu ganhava e que ficava para ele.

Apenas nesses dias, em que eu desempenhava o papel de servente e o meu pai de pedreiro, que era, mostrava alguma afeição por mim.

O mestre, chefe do meu pai, desde cedo gostou da minha forma de trabalhar pois após ter mirado de soslaio o meu corpo de lingrinhas, percebeu que por debaixo daquelas peles coladas aos ossos, eu tinha fibra. Na verdade eu não me negava a nada, nem fazia as pausas para beber cerveja que o meu pai e demais companheiros faziam constantemente. A mim, calhava-me a função de ir buscar a cerveja e magoou-me a forma desprendida como o meu pai sacava de uma nota para pagar uma rodada à malta, quando berrava com a minha mãe de cada vez que ela pedia dinheiro para ir à praça ou ao supermercado.

Mas ia.

Corria sobre as tábuas evitando os pregos que perfurariam os meus ténis coçados, como se ir buscar cerveja fosse a missão mais importante do mundo. E voltava em passo apressado, ligeiramente curvado com o peso, e entregava-as ao meu pai. Era aí, nesses momentos, que por vezes, de forma algo inesperada para mim, ele era capaz de passar a mão calejada pelos meus cabelos numa espécie de carícia furtiva.

Ainda hoje não sei qual o sentimento que me dominava então. Um misto de vergonha pelo gesto, o prazer de ver o meu pai contente comigo ou a raiva de tal se passar tão esporadicamente.

Mas em casa, os contactos com a mão do meu pai, assumiam sempre a forma de uma bofetada, de um sopapo ou de um beliscão. Com a minha mãe passava-se o mesmo. Nunca mas nunca vi, um gesto de carinho do meu pai para com ela. Apenas a minha irmã, mais nova que eu, por vezes era sentada ao colo do meu pai que a acariciava nos cabelos e ficava ali, sentada, estática, com um sorriso giocondo que não se percebia se era de prazer, se de constrangimento.

Tanta confusão me fazia aquela ausência de carinho entre os meus pais, que eu próprio, na escola, me habituei a evitar os toques com os meus colegas, exceptuando aqueles inevitáveis dos golos de futebol ou das festas na sala de convívio, onde dançávamos slows com as miúdas. No entanto, nem aí, a minha sorte sorria, e afagava mais vezes com o meu traseiro as paredes da sala de convívio que punha as mãos nos ombros delas.

Uma vez cheguei-me a interrogar como é que os meus pais me tinham feito, se teria sido no meio de um arraial de porrada, com os gritos que por vezes invadiam de forma inquietante o meu quarto. A resposta ouvi-a da boca do meu pai, na obra, com a boca a lamber a espuma da cerveja e após ouvir um elogio ao meu desempenho.

- Foi uma grande foda, a que eu dei à minha mulher para sair um puto tão rijo como aqui o Pedro.

Os outros riram-se em gargalhada sonora com arrotos pelo meio, enquanto, mais uma vez, a raiva me atravessava os dentes. Nesse dia não resisti, procurei o mestre e disse que me sentia mal a trabalhar ali aos Sábados e a ganhar metade da jorna dos outros quando mais de metade do tempo estava a ir buscar cervejas ao invés de carregar carrinhos de tijolos ou sacas de cimento.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 06 Dec 2005 21:16

Ele percebeu-me e pôs-me a mão no ombro. E essa mão era tão grande e tão quente que os olhos se me humidificaram e pensei que gostava de ter um pai que me tocasse assim, com respeito. E ele olhou-me nos olhos e viu o que mais ninguém nunca tinha visto.

Nesse dia, mal entrei em casa levei um enxerto de porrada, até que a minha mãe interveio, e a fúria se voltou contra ela. Eu fugi para o quarto a chorar com os punhos cerrados e sabendo que nunca mais voltaria àquela obra, nem nunca mais poderia mostrar ao mestre que eu sabia o que era trabalhar e desta forma ganhar o respeito dele que era o que eu mais ansiava.

Nessa noite não consegui dormir e ouvi a minha mãe, olhos vermelhos e faces negras, a espreitar o meu quarto. Abri os olhos e ela veio-me abraçar e chorar agarrada a mim. Eu tinha catorze anos e a minha mãe chorava agarrada a mim.

Eu tinha catorze anos e eu não podia chorar. Ela chorava agarrada a mim.

- / -

De repente grossas lágrimas de chuva escorrem sobre nós. Como num filme. Como num dos filmes que o Peter Pan me levou a ver – “Faz parte da tua aprendizagem miúdo.”

E neste instante, sinto-me como se saísse do meu corpo. E vejo-nos ali, frente a frente, mãe e filho. E agora que nos vejo de fora, vejo que nestes dois corpos que somos nós, o meu está mais envelhecido que o teu, que estranhamente ganhou um outro fulgor.

A chuva continua a cair.

Finalmente fazes-me um gesto vago que pode querer dizer para eu entrar em casa. E o abraço que não me deste, dá-me agora a casa, os móveis, o chão que range debaixo dos meus pés, bem mais alto do que rangia quando saí de casa. Ou o chão envelheceu, ou o meu peso aumentou, as duas coisas pela certa...

Mas é acima de tudo o cheiro da casa que me ensopa e me abraça. Apesar de notar algo de diferente como uma aragem fresca que se atreveu a invadir aquela humidade. Finalmente percebo. É o cheiro do covil, mas sem a fera.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 08 Dec 2005 00:02

Os fins de semana de repente tornaram-se enormes, e a pequena miséria de moedas que me tilintavam nos bolsos desapareceram.

Por vezes nos meus braços acordava uma vontade de quebrar muros e ir correr o mundo, por vezes nos meus pés o desejo de pisar outras terras era maior que tudo. Mas olhava para a minha mãe, para os seus olhos meigos e cansados, o seu corpo moído e maltratado e pensava que não tinha esse direito.

Foi então que aconteceu.

Eu já estava na cama, olhos fechados, vendo coisas bonitas que na altura só as conhecia assim, de olhos fechados.

A voz arrastada do meu pai chegou-me através da parede, ainda mais alta que o costume. Encostei o ouvido à parede que de tão fina que era, dava para ouvir as lágrimas da minha mãe a caírem no chão. A porta do meu quarto abriu-se e entrou a minha irmã. Assustada. Ensonada.

Abracei-a com força e enfiei-a na minha cama – Não saias daqui – disse-lhe. Fez que sim, a medo, com a cabeça e cobriu-se completamente com o lençol. Furtivamente saí do meu quarto e tentando evitar o ranger do soalho, aproximei-me da porta entreaberta de meus pais. O meu pai com as calças nos tornozelos agarrava a minha mãe pelos cabelos, puxando a boca dela para o seu sexo pendente.

Ela, de gatas, camisa de dormir que mal tapava as carnes que lhe sobejavam torcia-se e protegia a cara com uma das mãos, que a outra fincava-a no soalho.
- Não queres – gritou ele – não te preocupes que eu arranjo quem faça.
- Não, isso não.

O meu rosto de rapazinho, acocorado do outro lado da porta, via a pior das violações, a que um homem faz à sua própria mulher. Vi então a minha mãe a segurar o pénis dele e a mete-lo na boca. O meu pai rejubilava mantendo-a presa pelos cabelos. Ria-se. Bêbado.

De repente puxou-a para trás e deu-lhe uma estrondosa bofetada.
- Puta ! Tu estás a gostar, não é? A quantos mais fazes tu isto ?

Nessa altura a voz aflita da minha irmã chamou-me do quarto e os dois olharam para a porta, e para a fresta de onde emergiam os meus dois olhos arregalados.

Corri para o quarto e ele correu atrás de mim. A minha mãe caída no chão, como um trapo. O meu pai a entrar no quarto e a ver-me, e a levantar os braços e a baixá-los ao ver a minha irmã e a pegar-lhe ao colo. Esgueirei-me porta fora sem responder aos chamamentos de minha mãe.

A noite estava quente e serena. Olhei para o céu e vi as estrelas. Antes de virar a esquina e me ir deitar no canteiro do centro da Praça, olhei para a Casa que estremecia de dor.

Nessa noite, deitado na relva, dormi um sono exausto. Por mais de uma vez senti os braços da minha irmã a rodearem-me o pescoço e as lágrimas da minha mãe a encharcarem-me a camisola. Acordei com o ruído dos primeiros carros e tinha uma decisão tomada estampada no rosto. Estranhamente calmo, procurei um lugar privilegiado de onde pudesse ver sem ser visto. E, como de costume, pelas sete horas, vi o meu pai a sair de casa e a dirigir-se à paragem do autocarro.

Esperei mais um pouco até me decidir a entrar em casa e a ir falar com a minha mãe.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 08 Dec 2005 14:17

Entro na sala e não me atrevo a sentar. Estranhas recordações, difusas, bailam-me na memória.

Olho à volta procurando as mudanças. Tudo está igual mas tudo me parece diferente. A janela está aberta e aproximo-me dela sentindo o vento a amaciar-me a cara. Abro-a completamente e olho lá para fora e vejo as paredes, as mesmas paredes que vi anos a fio desta janela ou da do meu antigo quarto.

Quantas horas não passei olhando estas mesmas paredes e sonhando com o dia em que algo mudaria. De repente uma lágrima atrevida espreita-me do canto do olho, mas enxugo-a discretamente com a ponta do dedo. Não quero que me vejas chorar.

Ainda não...

Sei que há-de chegar o momento em que as lágrimas se soltarão e acabaremos por nos afundarmos nos braços um do outro, mas ainda é cedo.

Escuto os teus passos e ruídos conhecidos na cozinha. Tudo me soa tão familiar mas percebo que há qualquer coisa de diferente. Não só os anos que passei fora. O meu pai morreu e és agora uma viúva. Será isso ? Ou a minha irmã casou-se e vives sozinha.

Será que quando saí de casa, naquele dia, não te condenei à solidão. Em que pescoço afundaste as tuas lágrimas mãe.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 10 Dec 2005 00:41

Bati à porta, e quando vieste abrir e estendeste os teus braços para os meus que pendiam, caídos, afastei-te para entrar. Olhaste para mim com alguma surpresa enquanto balbuciavas coisas vagas sobre pensares que eu tinha fugido ou que nunca mais me verias. Confesso que não ouvi e caminhei com o passo mais resoluto que é possível para um miúdo de catorze anos. Entrei na sala, sentei-me e pedi para que te sentasses.

Vi nos teus olhos o que queria ver, que me estavas a ver como um homem. Um homem que toma uma decisão e que a tenciona levar avante. Um homem que vai falar sem rodeios. Um homem.

Mas quando te disse que todos os limites tinham sido ultrapassados e que tínhamos que ir à Polícia, quando te expliquei que nem eu, nem a minha irmã podíamos crescer assim, quando te disse que merecias uma vida melhor, apenas respondeste com lágrimas e perdeste toda a compostura que tinhas adoptado para ouvir o teu filho, criança feita homem para o momento, falar.

Foi de rojos no chão que me disseste que não. Foi entre lágrimas e súplicas que pediste “tudo menos isso”, e perante o meu ar espantado mas decidido, puseste-te de pé.

- Pedro, meu filho, ele é do tipo vingativo. Nós não podemos ir à Polícia, eu vou tentar falar com ele.

Nem tu acreditavas nestas últimas palavras que pronunciaras, nem eu acreditava na tua reacção. Em vão tentei demover-te, e à força dos meus argumentos foste respondendo com um silêncio cada vez mais pesado.

Recordo este momento como um marco. Como o ponto de não retorno. Tinha sido difícil para mim tomar uma decisão contra o meu pai. Tinha sido difícil pensar que teríamos de contar a estranhos as inúmeras agressões e insultos a que éramos sujeitos. Mas o mais difícil de tudo foi ver a minha mãe, farrapo humano, a defender o seu algoz.

Foi com um esforço sobre-humano que retive as lágrimas, enquanto me despedi da minha mãe. Eu decidira que não voltaria a viver debaixo do mesmo tecto que o meu pai, se a minha mãe não o queria entregar à polícia, teria de ser eu a sair.

E foi já comigo a correr porta fora, que as lágrimas se soltaram, as minhas e as dela.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 11 Dec 2005 21:51

Os objectos à minha volta sussurram o meu regresso e tu entras com o chá.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 11 Dec 2005 21:52

Chovia.

Corri pelas ruas, virando umas e atravessando outras sem sombra de nexo ou de intenção. Só parei quando o coração ameaçava ser vomitado pela boca e as pernas recusavam-se a dar mais um passo. Sentei-me ali mesmo, no chão.

Um pequeno telheiro de chapa cobria-me a cabeça e encostei as costas a uma parede mal amanhada de madeira. De pouco me servia o abrigo, assim improvisado, todo eu estava encharcado e à medida que o meu coração entrava no compasso, os meus ossos arrefeciam até começar a doer.

Porém eu nada notava nem nada sentia. As lágrimas continuavam a escorrer-me pela cara misturando-se com a chuva e desembocando na lama onde me sentara.

Recordo com perfeita lucidez e uma nitidez de pormenores que por vezes me invadem, ainda hoje, os sonhos, o conjunto de acontecimentos que me levaram até ali. Até aquele pequeno barraco de trabalhadores das obras, construído junto a uma das principais avenidas da nossa cidade – Lisboa. Mas esse dia, passado a deambular debaixo de uma chuva persistente, sem que nada orientasse os meus passos, sem que nada orientasse o turbilhão de ideias soltas que me atordoavam, confesso que não é mais que uma mancha nebulosa na minha memória.

Penso que só à noite, ao agudizarem-se as sensações de fome e de frio que me assolavam, ganhei verdadeira noção da minha situação e de onde viera parar. À rua.

Comecei de novo a caminhar, talvez sem razão, mas com uma direcção determinada. Procurei o rio Tejo como os lobos procuram a Lua, ou o mar vem morrer em ondas na areia das praias. Por qualquer motivo inexplicável, sentia um apelo interior de me sentar junto ao Tejo, de ver as ondulações nos Cacilheiros para pensar um pouco no que faria da minha vida.

Quando cheguei ao Cais das Colunas depressa me apercebi que não era o único a sentir esse apelo. As amuradas estavam cheias de outros seres errantes. Vi bêbados e marinheiros, casais que se formaram naquela noite e que se separariam mal raiasse a aurora, e rapazes da minha idade também. A maior parte, vim a saber mais tarde, vendiam o corpo a troco de dinheiro para gastar na droga. Tinha corrido para o rio em busca de paz, precisava de pensar maduramente. Precisava de soltar os meus temores de menino e de assumir que os meus dias de criança tinham chegado definitivamente ao fim se é que tal não acontecera muitos anos antes na primeira vez que a minha mãe escolheu os meus ombros para chorar e os meus braços para a consolar.

Recomecei a caminhar, sempre junto ao rio e só depois de ter deixado para trás o Cais do Sodré e a sua vida própria é que encontrei o que procurava. Um recanto abrigado de onde via o mar. No chão viam-se alguns cartões e uma agulha partida que deitei à água com um pontapé, sinal de outras utilizações. Sentei-me, abraçando as minhas pernas magras e com os olhos postos na noite reflectida no Tejo, deixei-me absorver pelo silêncio e por uma estranha paz, mais fruto do cansaço que da situação, acabando por adormecer.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 13 Dec 2005 00:13

Sentas-te à minha frente, com os olhos baixos e serves duas chávenas de chá, agradeço-te e por minha vez sirvo-te o açúcar. E é com este ritual cerimonioso que as línguas se soltam finalmente. Falamos de tudo e de nada, começando pelo tempo e acabando nos desejos de felicidade para a vida de casada da minha irmã.

Agora que já esgotamos todos os assuntos, olhas-me nos olhos e nada me dizes.

Agora que já esgotamos todos os assuntos, olho-te nos olhos e nada te digo.

De repente, vejo as minhas mãos estenderem-se para as tuas que também se ergueram e caminham na minha direcção. Damos as mãos com os braços esticados e com uma leveza rara no teu corpo pesado, aproximas-te de mim sem me largares as mãos. Não pronunciamos mais nenhuma palavra, ficamos assim mãos nas mãos e olhos nos olhos.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 14 Dec 2005 00:20

Quando acordei, o frio tinha-me invadido os ossos e a fome tornara-se insuportável. Vasculhei os bolsos em busca de uma simples moeda que não encontrei. Ali estava eu, sem casa nem dinheiro, nem sitio para onde ir.

Mas em casa eu tinha uns míseros tostões que me sobraram dos fins de semana a trabalhar como o meu pai. Não os podia ir buscar e foi então que percebi que a minha irmã não tinha culpa de nada e que eu não a ia abandonar, entre a brutalidade do meu pai e a resignação da minha mãe. Sonhei então que um dia havia de ter dinheiro e que haveria de a ir buscar para viver comigo. Como única consolação, o facto de saber que o meu pai nunca lhe batera e que não era provável que fosse agora que iria começar a sofrer maus tratos.

Como não podia ir a casa, esperei a minha irmã à porta da escola dela. Foi um momento bonito que guardo na memória, o seu ar triste a converter-se num sorriso de felicidade e os seus braços abertos a correrem para o meu pescoço para me abraçar. Este foi o primeiro de muitos encontros fugazes que mantive com a minha irmã e que me mantiveram a para da vida na casa que abandonara. Expliquei-lhe onde guardara o dinheiro e ficou de mo trazer à tarde.

Vi-a afastar-se em passo de corrida para o interior da escola que a sineta tocara há muito. A fome castigava-me o estômago e cheio de medo aproximei-me da minha rua. Nessa rua havia uma pequena mercearia e foi lá que me desloquei pedindo duas carcaças com fiambre e um sumol que pagaria mais tarde. O dono, que me conhecia desde pequeno, estranhou o meu ar sujo e mal dormido mas nada disse. Estendeu os pães e a bebida e foi à porta confirmar que o meu rumo era o oposto ao da minha casa.

Apenas ao fim da tarde voltei para lhe pagar com o dinheiro que a minha irmã me trouxera e que quase que se esgotara logo ali. Mais uma vez senti um olhar inquiridor mas nada me disse.

Os meus passos encaminharam-me de novo para o Tejo enquanto não parava de pensar. Eu tinha catorze anos e já não acreditava no Pai Natal nem em milagres de Nossa Senhora, tinha tomado a decisão de sair de casa, ia ter de viver com ela. Ainda hoje estranho como não me entreguei ao desespero nesse primeiro dia fora de casa e como analisei ponderadamente todas as ideias que me afloravam à cabeça. Não havia soluções brilhantes e por muito medo que tivesse de dar de caras com o meu pai, depressa percebi que só tinha uma pessoa a quem recorrer e que essa pessoa era o mestre.

Deixei que o dia escurecesse antes de me aproximar da obra onde andavam naquela altura, vi de longe o meu pai e mais uns colegas a dirigirem-se para uma taberna e percebi que o meu momento chegara. Cheio de medo de não o encontrar desatei a correr desenfreadamente até entrar no recinto da obra.

Não se via ninguém e só se ouvia o barulho ensurdecedor do meu coração.

Foi então que uma voz me chamou e me disse – Pedro, se procuras o teu pai ele acabou mesmo de sair.

Voltei-me e dei de caras com os olhos sérios do mestre. Senti uma vontade irreprimível de me lançar nos seus braços a chorar mas contive-me, a custo, sabendo que tinha de lhe mostrar que o que ele tinha à sua frente era um homem. As palavras recusavam-se a sair e as lágrimas, pelo contrário, teimavam em humedecer os meus olhos, fingi que tossia e expliquei-lhe que estava constipado, tentando desta forma enganá-lo nos meus olhos lacrimejantes.

Finalmente, com alguma dificuldade expliquei-lhe ao que vinha, que precisava de trabalho que estava disposto a fazer tudo e que não podia ser na mesma obra que o meu pai.

Calei-me aguardando a sentença e sem conseguir desviar os meus olhos, daqueles outros que me inspiravam tanta confiança.

- De certeza que não te posso ajudar de outra maneira – disse-me sem desviar os olhos dos meus e com as suas mãos fortes pousadas nos meus ombros.

Aquele contacto físico fez desmoronar o que já não se aguentava e as lágrimas correram-me livremente pela cara – Não, não pode, mas dê-me uma oportunidade por favor.

Olhou-me muito seriamente durante uns longos três minutos, em que eu não consegui respirar e pediu-me para esperar um pouco após o que entrou no contentor.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 15 Dec 2005 00:45

Por fim quebro o silêncio e digo-te - mãe, mãe, mil vezes mãe.

Tu olhas para mim mas não dizes – filho, filho, mil vezes filho.

Mas o que os teus lábios não dizem, dizem os teus olhos, e afundo-me neles e sou eu que solto as lágrimas acumuladas durante anos e anos e anos. Sinto os teus braços à minha volta e eu tinha catorze anos e tu choravas nos meus braços, ainda frágeis, e sete anos se passaram e sou eu que me afundo em ti e é nos teus braços que solto por fim as lágrimas, as mesmas lágrimas que durante anos engoli para dentro do interior de mim.

E a minha boca fechada não se cansa de repetir, mãe, mãe, mil vezes mãe. E os teus braços que me cercam respondem, filho, filho, mil vezes filho, mas também me perguntam quem sou e o que faço aqui, sete anos se passaram, e os meus braços frágeis são agora uns braços fortes de quem trabalha. E as minhas mãos são agora ásperas e tu não sabes bem quem eu sou, apesar de tudo saberes pois uma mãe sabe sempre quem é o seu filho por muitas vezes que se interrogue e por muitas vezes que ele seja aquilo que não parece.

Levanto agora o meu rosto que sinto molhado e olho para ti, e também eu pergunto quem tu és. Não mudaste como eu, tens as mesmas mãos enrugadas de tanto esfregar, o mesmo rosto terno mas perdeste o medo do teu olhar.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 17 Dec 2005 00:53

O mestre saiu do contentor com um sorriso nos lábios que me contagiou imediatamente. A firma para onde trabalhava ia começar com obras na linha do Metro que serviria a Expo98. Iam precisar de braços mais fortes do que os meus, mas por certo também lhes faria jeito uma boca que falasse português.

Com o seu ar sério mas meigo, combinou tudo comigo, ir-me-ia apresentar em nome dele a um tal de Teixeira. Explicou-me onde e quando e por fim deu-me um abraço, forte mas rápido.

Quando voltou para o contentor eu ainda estava especado no meio do estaleiro. Tinha arranjado trabalho, tinha catorze anos e tinha arranjado trabalho. Mas só começaria dali a três dias e não tinha nem dinheiro nem sitio onde dormir.

A noite fechou-se sobre mim.

Não conhecia outro caminho pelo que voltei para junto do Tejo, desta feita, porém, sentei-me junto a um grupo de homens que fumavam cigarros e matavam o tempo. Tinham a roupa suja, e as mãos marcadas pelo tempo mas falavam com a tranquilidade de quem não tem preocupações. Viram-me chegar e não me estranharam, era apenas mais um que caíra nas encruzilhadas da vida.

Não me falaram mas também não se incomodaram como o meu olhar insistente. Ouvia-os falar de tudo e de nada, de futebol principalmente. De repente disseram chegou a hora. Não sabia a que hora se referiam, mas não havia dúvida que a hora chegara. Vultos ensombrecidos erguiam-se e encaminhavam-se numa direcção definida. Fui com eles. Formávamos um estranho rebanho, silencioso e vagaroso.

Por fim chegámos. Uma carrinha branca com jovens aguardava a nossa chegada e ofereceram-me sopa e um pão que comi avidamente. Um dos rapazes, com forte barba preta, olhou-me intrigado. Lembro-me de me ter sentido mal perante aquele olhar. Aquele olhar distinguia-me dos demais e eu não queria ser diferente de todos aqueles homens, velhos e novos, roupa suja que mitigavam a fome dada por jovens numa carrinha branca. Eu não sabia que aquele olhar se devia ao meu. O meu olhar era diferente dos demais, não tinha o ar resignado e desesperado dos sem abrigo que me acompanhavam. Mantinha, ainda, no rosto um brilho no olhar. Um brilho intenso que ganhara mais cor com um trabalho, algures numa futura estação do Metro, algures no caminho para Oriente.

Quando todos acabaram de comer, espalharam-se cada um na sua direcção. Já não havia rebanho. Já não havia razão.

O rapaz da barba perguntou-me se era novo por ali, ao que respondi que sim.

- Nota-se no teu rosto – disse-me.

Ganhei coragem e perguntei se haveria uma outra carrinha branca ou de outra cor qualquer que me oferecesse dormida. Pôs um ar sério e apresentou-se, chamava-se André e ocupava os seus poucos tempos livres a ajudar quem precisava. Escreveu uma morada num bocado de papel e deu-me – aí deixam-te dormir três noites, mais não. Depois tens de arranjar outra solução.

- Não preciso de mais – respondi-lhe.

Afastei-me pensando que um dia eu haveria de ter dinheiro e trabalho e que nas horas vagas, mesmo com o corpo cansado de carregar tijolos eu ia ajudar quem precisava. Nessa noite, numa cama no meio de muitas outras, sonhei comigo numa carrinha branca a percorrer as ruas de Lisboa e com uma multidão silenciosa, vestida de noite, a rodear respeitosamente a carrinha. Lá dentro, comigo, estava o André que curiosamente tinha os olhos sérios e meigos do mestre.

Essa foi a minha primeira noite no abrigo de S.José.

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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 19 Dec 2005 09:23

Bebes agora o teu chá em gestos lentos enquanto eu enxugo as minhas lágrimas e tento devolver ao meu rosto o ar sereno com que te procurei.

Bebes o teu chá, levantas-te e pedes-me para eu esperar um pouco. Sais da sala, sem uma explicação, sem olhares para trás e com um ar decidido que não to reconheço.

Levanto-me também e ponho-me às voltas pela sala. De repente paro e apuro o ouvido, mas os teus sons vindos do teu quarto nada me dizem. Olho à minha volta e pensamentos avulso batem-me à porta.

A minha irmã. A minha irmã que se casou e com que eu brincava no chão daquela sala, deitados no chão. O meu pai a chegar, a pegar na minha irmã e a pousá-la no seu colo. A minha mãe. A minha mãe sempre cabisbaixa a correr para a frente e para trás a tentar não desagradar ao meu pai, como se fora possível não desagradar a alguém que vive desagradado com a vida.

Eu num canto. Os meus olhos vivos e calados a verem tudo e a não dizerem nada.

Olho para a porta do meu antigo quarto. A porta que abrias para vires chorar agarrada a mim. A porta que a minha irmã abria para se me meter na minha cama. A porta que o meu pai abria para com um estalo me acordar nos sábados em que ia com ele para a obra.

É então que abres a porta do teu quarto e vejo que mudaste de roupa. Trazes cor na tua roupa e trazes cor no teu olhar. O luto, se o houve, ficou para trás.

- Anda –dizes-me – leva-me para um sitio bonito que conheças que eu preciso de sair daqui.

Pedro Farinha
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Re: A tua irmã casou, o teu pai morreu

Postby Pedro Farinha » 29 Dec 2005 01:23

Cheguei à conclusão que ler isto tipo folhetim deve-se tornar fastidioso. aliás já foram várias as pessoas que me pediram que enviasse o ficheiro inteiro, pelo que deixo aqui o link para o PDF para que, caso queiram, o possam ler do principío ao fim e não tipo tele-novela.

<a href='http://ofaroldasartes.no.sapo.pt/A%20tua%20irm%E3%20casou%2C%20o%20teu%20pai%20morreu.pdf' target='_blank'>A tua irmã casou, o teu pai morreu</a>


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