Álvaro

Pedro Farinha
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Álvaro

Postby Pedro Farinha » 05 Mar 2006 22:27


Álvaro



Durante quinze anos publicara semanalmente a sua coluna de opinião. Nunca falhara, nem nas férias, nem daquela vez que apanhara uma salmonela que o agarrara à cama e à sanita durante quinze dias. Muito a custo, erguera-se e sentara-se frente ao computador para escrever uma das suas crónicas mais aguerridas de sempre: a propósito da decisão do Governo Português em afastar o Prestige das águas nacionais e rezar, ao invés de tentar salvar o barco e a vida marinha ameaçada.

A sua coluna era comentada por todos, os políticos pegavam no jornal, num misto de medo e de ansiedade até saberem se tinham sido, ou não, poupados pela acidez da sua linguagem. Nunca mentira, nem omitira factos, mas também nunca tinha tido problema em escrever a sua opinião em palavras direccionadas, fatais e, por vezes, desagradavelmente brutais.

Ele era um combatente terrível. Mas era um guerrilheiro de sofá. A sua ideologia saía em letras impressas. Nunca, mas por nunca ser, aceitara os inúmeros convites para participar neste ou noutro debate televisivo. De tal modo a sua recusa se tornou comentada que apareceram os mais tenebrosos boatos sobre o seu aspecto fisíco, doenças estranhíssimas ou impedimentos legais. Sim, chegara a ser colocada a hipótese de se encontrar a cumprir pena num estabelecimento prisional e de por esse motivo nunca poder aparecer em público.

Tudo falso. Ele era um homem comum, nem alto nem baixo, de cabelo castanho escuro que agora, ao atingir os quarenta anos, começava a rarear na nuca o que, aliada a uma certa proeminencia abdominal, lhe dava um certo ar de padre franciscano.

Pois este homem de quarenta anos que nunca hesitara em atirar a primeira pedra, que sempre bebera nas criticas dos outros, a sua auto-estima, e que ria-se em privado, deliciado, com ameaças mais ou menos veladas que lhe eram feitas de cada vez que um dardo encontrava o alvo; este homem chorava silenciosamente, olhando para a página do calendário que assinalava o seu quadragésimo aniversário.

As lágrimas escorriam-lhe pela cara e pingavam-lhe nas mãos pousadas, desamparadamente, no colo. O seu olhar percorreu os inúmeros dossiers que forravam, em estantes, o seu local de trabalho. Tanta coisa lida, tanta coisa escrita, horas e horas de investigação, telefonemas e navegação na internet, e ali estava tudo, arquivado, documentado, pronto a ser exibido de cada vez que algum tolo lhe tentava por uma acção em tribunal. Ele nem precisava de sair do escritório, o advogado passava por lá, fotocopiava os documentos, as provas, as evidências, e a queixa era arquivada, desistiam do processo e iam ranger os dentes para outro lado.

Álvaro, assim era o seu nome, levantou-se e tacteou as lombadas dos livros da estante mais próxima. Tirou, quase que ao acaso, um dossier com as publicações do ano de 1999. Tanto coisa escrita, tanta opinião esforçadamente posta em papel, a escolha certeira e prefeita das palavras mas só agora de apercebia que tinha quarenta anos, opinava sobre tudo e todos, mas nunca tinha feito realmente nada na vida.

A sua coluna era lida, desmantelada e interpretada por comentadores dos mais diversos jornais e quadrantes políticos, mas nunca tinha produzido nada de nada. Não havia nada que ele pudesse pegar e dizer – “Fui eu que fiz isto” ou “estas alfaces foram plantadas por mim”. Nada. Nem a maior obra de engenharia nem a mais pequena estante de carpintaria. Nada de nada.

Tinha quarenta anos, quinze dos quais enfiado num escritório atrás de informação pertinente, mas, depois de uma depressão que lhe tirou dez quilos num mês, largou tudo e arranjou emprego como ajudante de um quinteiro lá na terra dos pais dele. O homem era de poucas falas e não lhe perguntava nada. Álvaro nada dizia mas enfiava as mãos na terra até ter as unhas pretas e amarfanhadas e ria-se olhando para o céu azul.

Nunca mais escreveu uma linha que fosse, mas de cada vez que arrancava mais tubérculo da terra, sentia-se realizado como nunca tinha conseguido até aquele momento.

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Re: Álvaro

Postby Samwise » 06 Mar 2006 11:50

Que bons ventos saúdem o teu regresso, Pedro!!!!

E como gosto eu de ler os teus textos!

Este está escrito com a habitual sensibilidade (parece que a tua "caneta" está revestida de veludo) e insere-se numa temática que também não te é estranha: a busca do verdadeiro "eu" e a recuperação da auto-estima através da aceitação da realidade (já tinha lido sobre ela num ou noutro texto teu e, sobretudo, no "A tua irmã casou, o teu pai morreu").

:tu:

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