Amo-te

Pedro Farinha
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Amo-te

Postby Pedro Farinha » 29 Oct 2006 17:43

Amo-te – dizes-me tu. Assim mesmo. Como se não fosse nada. Como se não passassem de cinco letras ao calhas atiradas contra uma parede com um hífen pelo meio.

Como se esta não fosse a palavra que eu sempre mais quis ouvir até à um momento atrás. Como se ainda fosse importante. Como se o teu amor tivesse a estranha capacidade de curar o animal que cresce dentro de mim. Amo-te.

Claro que eu também te amo. Aliás acho que sempre te amei. Desde o dia em que aquela estranha empatia se meteu entre nós e fez com que o nosso olhar se emaranhasse mais do que seria normal. Depois, a partir desse dia em que nos encontrámos num acaso qualquer do destino, nunca mais te consegui esquecer. Nunca fomos próximos mas sempre te senti junto a mim. De cada vez que precisava de tomar uma decisão dificil, eram os teus sábios conselhos e o sorriso dos teus olhos que me davam força para continuar. Mas tu não sabes. Não tu não sabes, nem nunca conseguirás perceber porque é que eu sempre quis ouvir essa palavra de amor a brotar dos teus lábios na minha direcção e como sempre a temi também.

Até hoje.

Hoje em que por mero acaso nos encontrámos. Não num encontro combinado daqueles que sempre tivémos espaçados no tempo, mas próximos no espaço que dista da minha casa à tua. Não. Hoje apareceste na esquina com o ar alegre e despreocupado que te caracteriza e eu disse-te – anda, vamos tomar um café que eu depois tenho de passar pelo laboratório. A conversa que nunca nos faltou estava boa e as verdades, como as mentiras e as cerejas, enredavam-se umas nas outras e, como sempre, parecia que ainda tinhamos muito a dizer um ao outro, pelo que tu sem compromisso, e eu com um percurso a seguir, acabámos por nos levantar juntos e caminharmos, lado a lado, até ao guichet do inferno onde recebi este maldito envelope branco.

Li-o em diagonal, mais atento ao brilho dos teus olhos e á suavidade dos teus dedos que por instantes tinham tocado nos meus, do que ao conteúdo. Até que a brutalidade da verdade me atingiu entre os olhos. Na próstata para ser mais preciso. Numa fase avançada para ser mais definitivo.

E agora a palavra “amo-te” dança no ar, entre nós, e eu já não sei o que ela quer dizer. Se paixão, se compaixão. Vejo a tua boca a gesticular sem que saia mais nenhum som. O branco imaculado da bata da enfermeira que se debruça sobre mim e o tecto a rodopiar sobre a minha cabeça.

A escuridão acende-se antes de sentir o contacto, seco, com o chão.

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Re: Amo-te

Postby Samwise » 30 Oct 2006 11:12

Este é dos textos mais horripilantes, pelas sensações que descreve e pela subversão completa do sentido das coisas a que se presta, que já alguma vez li.

De início parece uma coisa, mas o que vem a seguir é algo de indescritível. Aliás, tive de o ler duas ou três vezes para lhe apanhar o sentido na totalidade - e a verdade é que aquilo que na primeira leitura nos parece estranhamente deslocado (porque é que a palavra "amo-te vem tão revestida de secura), à segunda leitura toma contornos arrepiantes.

Um autêntico e perturbante "tour de force"!

Sam
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Re: Amo-te

Postby João Arctico » 01 Nov 2009 01:22

"Nunca fomos próximos mas sempre te senti junto a mim.".
Porque o amor se transforma num elo invisível que nos une, como que... de sempre e para sempre!...
Estranho é o amor!... Que força universal é esta?... E ao acreditarmos nesta “força” poderemos duvidar da existência de um Deus?

Explêndido texto, sem dúvida!
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo


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