O rapaz da cadeira de rodas

Pedro Farinha
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O rapaz da cadeira de rodas

Postby Pedro Farinha » 22 Apr 2008 14:21

O rapaz da cadeira de rodas

Quando ela lhe perguntou pela enésima vez o que podia fazer por ele, o rapaz da cadeira de rodas disse à mãe, contrata-me uma prostituta. A voz saiu-lhe firme, sem tremer. Quase com naturalidade, pensou ele com orgulho. Andava à mais de uma semana a preparar-se, dava por si a imaginar diálogos com a mãe. A fantasiar mais com o rumo que a conversa teria depois de ele conseguir dizer a frase do que com a puta em si.

Há coisas que não são fáceis um filho dizer à mãe, mesmo um filho centauro, rapaz da cintura para cima e cadeira de rodas da cintura para baixo. As pernas pendentes e imóveis penduradas como se de roupa a secar se tratasse.

Mas a mãe tantas e tantas vezes insistia que faria tudo o que ele lhe pedisse só para o ver mais feliz, não que ele fosse infeliz, pelo menos dadas as circunstâncias e até ao ponto em que um adolescente consegue ser feliz, ou pelo menos manter-se feliz, que ele ganhara coragem e dissera de uma só vez a frase, sem interrupções ou volteios de voz.

A mãe sim, erguia barricadas contra a felicidade, reprimia cada sorriso que lhe aflorava aos lábios, como se fosse pecado. Como se fosse pecado uma mulher que três anos atrás tinha tido um acidente de automóvel em que o seu filho fora a única vítima, poder ter um naco, que fosse, de alegria. Por vezes, frente à televisão ou na conversa animada com as vizinhas os olhos ainda relampejavam, mas a face endurecia e os cantos dos lábios descaíam prontamente mal se dava conta.

E dia após dia, semana após semana, vivia o seu calvário, feito de culpa assumida e de impotência perante a situação do filho. Cada desejo que ele sentisse, cada palavra que brotasse da sua boca, ainda a frase não estava toda cá fora e já ela ia a correr tentar satisfazer essa vontade. E agora isto.

O rapaz da cadeira de rodas aguardava tenso. Só ele sabia quanto lhe tinha custado dizer aquilo à mãe, preferia mil vezes ter aproveitado uma noite, um dia, uma tarde que fosse em que ela tivesse para fora, para ele próprio via computador, no mundo que dominava e onde ganhava pernas facilmente, fizesses a “encomenda”. Mas a mãe não o largava, acordava ao mínimo ruído que ele fizesse e não se deitava sem que ele estivesse na cama, independentemente das horas que fossem. E se de manhã ele dormia enquanto conseguisse, em sonhos felizes com amigas que só conhecia de fotografia ou de filmes feitos em telemóvel, ela levantava-se e punha a casa num brinco. As olheiras que lhe enfeitavam o rosto tinha ganho raízes de permanência, mas ela não se importava, até iam bem com o sentimento de culpa.

Uma prostituta.

Claro que ele era um rapaz e não podia fazer as coisas como todos os outros rapazes da idade dele faziam, aliás ele nem podia fazer a ... “coisa”. A mãe sobressaltou-se e acalmou-se de uma vez só, o filho não queria ter sexo com uma prostituta porque pura e simplesmente não podia, o corpo era inerte da cintura para baixo.

- Mãe... – a cara do rapaz ganhou cor – pode ser ?

Se quinze segundos antes de ele lhe pedir uma prostituta lhe perguntassem se ela faria o que o seu filho pedisse, fosse o que fosse, ela juraria que sim, em cima da bíblia, torcendo o terço ou em nome do pai já falecido. Por tudo o que era mais sagrado ela juraria que iria fazer os possíveis e os impossíveis para satisfazer as necessidades do seu filho que o seu próprio descuido tinham tornado assim.

Mas agora hesitava. Uma prostituta, e para quê ?

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O rapaz da cadeira de rodas ouviu a chave a meter-se na fechadura, a mãe saíra pouco tempo atrás e ele estava no quarto virado para o computador. Fechou algumas janelas, não fosse ela entrar de rompante no quarto a perguntar-lhe se estava tudo bem e se precisava dela. Era essa a rotina ainda que tivesse ido apenas pôr o lixo no caixote. Por vezes era ele que tinha pena dela e inventava vontades que não sentia, como um sumo de laranja acabado de espremer ou qualquer outra coisa que a pudessem sossegar na satisfação de um desejo imaginário.

Quando a porta se abriu o rapaz ficou estupefacto. A D. Manuela, amiga da mãe, vinha mascarada de quê. Só quando ela fechou a porta teatralmente e deixou cair a saia mostrando as ligas e a celulite é que ele percebeu e a vontade de passar a mão pelas maciezas de uma pele feminina se desvaneceu.



Hoje, já passaram muitos anos desde este episódio e o rapaz virou homem, o peito já tem pêlos e a cadeira de rodas também é nova e já tem motor. E sempre que esse rapaz-homem quer sentir uma mulher, fecha os olhos e tacteia o teclado enquanto escreve palavras e frases impossíveis onde a doçura e a tristeza se cruzam sobre a pele morena de uma mulher.

srd
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Re: O rapaz da cadeira de rodas

Postby srd » 22 Apr 2008 16:49

Gostei. :smile:
Tenho lido nestas últimas semanas alguns textos teus e de uma maneira geral tenho gostado de todos. :wink:

Agora, e se me é permitido um pequeno reparo:
Pedro Farinha wrote:(...), uma tarde que fosse em que ela tivesse para fora, para ele próprio via computador, no mundo que dominava e onde ganhava pernas facilmente, (...)

(...que ele próprio via no computador, um mundo...), será?

Um dos aspectos que gosto nos teus textos é a informação que vais dando das personagens o que permite o envolvimento com as personagens, ou seja não aparecem desgarradas no tempo. Por exemplo neste texto, a informação do acidente trás, na minha opinião, uma mais valia e permite contextualizar o estado de espírito e toda a situação.

Passagens que gostei (gostei não é a melhor palavra porque gostei do texto todo, mas enfim, neste momento está-me a faltar uma palavra melhor):

Pedro Farinha wrote:(...) o rapaz da cadeira de rodas disse à mãe, contrata-me uma prostituta.

Há coisas que não são fáceis um filho dizer à mãe, (...)

A mãe sim, erguia barricadas contra a felicidade, reprimia cada sorriso que lhe aflorava aos lábios, como se fosse pecado.

(...) Só quando ela fechou a porta teatralmente e deixou cair a saia mostrando as ligas e a celulite é que ele percebeu e a vontade de passar a mão pelas maciezas de uma pele feminina se desvaneceu.


Eu cá estarei à espera de outros textos teus para ler. :wink:

SD

Pedro Farinha
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Re: O rapaz da cadeira de rodas

Postby Pedro Farinha » 22 Apr 2008 23:10

Pois. Já há muito que não vinha cá por nada e também não tenho escrito.

Fico contente que tenhas gostado. :bye:

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azert
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Re: O rapaz da cadeira de rodas

Postby azert » 25 Sep 2008 01:23

Pedro Farinha wrote:(...) um filho centauro, rapaz da cintura para cima e cadeira de rodas da cintura para baixo.


Muito interessante, esta imagem. :thumbsup:

Os teus textos (até onde li) têm carne, são organismos vivos. Mas por vezes, beneficiavam em ser escritos com palavras mais-qualquer-coisa. Não sei explicar que coisa será essa, mas é algo que eu sinto. É como se um matulão, com todos os músculos contraídos de raiva, se aproximasse de ti para te dar um murro e apenas te encostasse levemente os nós dos dedos, percebes, como se o gesto final não correspondesse à intensidade percebida.

(E off-topic: deixo, por hoje, os comentários aos teus textos, antes que me rebente uma bomba assinada por ti, amanhã ao fazer log in.) :mrgreen4nw:
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