Sangue

Pedro Farinha
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Sangue

Postby Pedro Farinha » 08 Oct 2008 00:01

Penetrei-a suavemente com a lâmina de um só gume deixando um rasto vermelho no seu corpo opalino. O corte fora pouco abaixo do umbigo e pouco profundo. Ela ainda estava viva e queria mantê-la assim mais um bocado. O cheiro a éter que pairava no ar justificava a sua aparente insensibilidade face à dor. A carne branca sobre os lençóis brancos ganhavam novo contraste com o vermelho muito vivo que escorria em direcção à sua púbis.

Baixei-me e olhei para a vulva mas, daquele ângulo eram as proeminências dos seus seios que firmavam o horizonte que me chamaram a atenção. Num gesto cuidado, com a faca afiada, desenhei uma rosácea em volta de cada mamilo que arranquei num puxão. Como duas fontes gémeas o sangue escorria, simetricamente, para os dois lados do seu corpo que estremecia e dava sinais de acordar. Espetei-lhe então a faca, bem funda, no coração e abri-lhe os olhos para que visse, para toda a eternidade, o meu amor em delírios vermelhos, espessos e gorgolejantes que marcara para sempre no seu corpo.

Esta foi a terceira mulher que eu matei, de cada vez uma obra de arte, mas olhando para trás, lembro envergonhado, os cortes atabalhoados e a mistura nojenta do sangue com esperma. Olha agora e pela última vez o seu corpo inteiro e marco finalmente em picotado carmesim o Y com que os médicos legistas iniciarão a autópsia.

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Re: Sangue

Postby Pedro Farinha » 08 Oct 2008 00:03

P.S. Trata-se de um exercício de escrita feito agora e às três pancadas mas tentando enveredar por temas que não me são comuns, e tentando utilizar uma crueza que me é contra-natura na escrita.

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Re: Sangue

Postby Thanatos » 08 Oct 2008 00:31

Muito interessante esta tua experiência "contra-natura." E logo quando ando a ler Patricia Cornwell...

Pareceu-me apenas detectar uma pequeníssima gralha:
Olha agora e pela última vez
Certamente querias escrever Olho agora visto que escreves na 1.ª pessoa.

Outro pormenor que penso que é mais uma questão de copyediting que outra coisa é o uso e abuso de pronomes. Não é só da tua escrita. Leio muito boa gente a escrever dessa forma. No meu entender fica deselegante but then again who am I?

Por exemplo eis o teu texto se fosse passado pelo meu crivo de editor:

Penetrei-a suavemente com a lâmina de um só gume deixando um rasto vermelho no corpo opalino. O corte fora pouco abaixo do umbigo e pouco profundo. Ainda estava viva e queria mantê-la assim mais um bocado. O cheiro a éter que pairava no ar justificava a aparente insensibilidade face à dor. A carne branca sobre os lençóis brancos ganhavam novo contraste com o vermelho muito vivo que escorria em direcção à púbis.

Baixei-me e olhei para a vulva mas, daquele ângulo, eram as proeminências dos seios que firmavam o horizonte que me chamaram a atenção. Num gesto cuidado, com a faca afiada, desenhei uma rosácea em volta de cada mamilo que arranquei num puxão.

Como duas fontes gémeas o sangue escorria, simetricamente, para os dois lados do seu corpo que estremecia e dava sinais de acordar. Então espetei-lhe a faca, bem fundo, no coração, e abri-lhe os olhos para que visse, para toda a eternidade, o meu amor em delírios vermelhos, espessos e gorgolejantes que marcara para sempre no seu corpo.

Esta fora a terceira mulher que eu matara, de cada vez uma obra de arte, mas olhando para trás, lembro envergonhado, os cortes atabalhoados e a mistura nojenta do sangue com esperma. Olho agora e pela última vez o corpo inteiro e marco finalmente em picotado carmesim o Y com que os médicos legistas iniciarão a autópsia.


Não leves a mal esta minha «edição.» Considera-a antes um devaneio dum gajo que não sabe estar calado e que graças à privação de sono já nem sabe o que escreve.
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Re: Sangue

Postby azert » 08 Oct 2008 01:21

Já que o thanatos deu o mote, outra pequena gralha: «<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo-->A carne branca sobre os lençóis brancos ganhavam». :rolleyes:

Gralhas à parte, impressionante este teu texto. Uma mistura explosiva de Eros e Thanatos. Tens uma capacidade camaleónica de colocar-te na pele dos outros. :ohmy:
Gostei do pormenor do picotado para os médicos legistas. :devil:
<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
P.S. Estou a descobrir em ti um caudal de palavras que, em vez de saciar, aumenta a sede de ler-te. :ohmy: :notworthy:
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Re: Sangue

Postby azert » 08 Oct 2008 01:48

Dá licença que partilhe do festim sangrento? :blush:

Relembro com gozo. O sexo competindo com a lâmina, mas só a esta permitindo o contacto com o corpo dela. Os meus olhos fixos na boca entreaberta. Pensei cortar-lhe a língua rente, leva-la comigo para percorrer o meu corpo. Mas foi então que os mamilos rosados, hirtos, me absorveram a atenção.

Sim, ela apreciava a minha arte e oferecia-se como canvas para a assinatura rubra. Engrandecer os mamilos prescindindo do seu contexto. Mais que madonna seria, jorrando sangue dos peitos, ao invés de insípido leite.

Só faltava agora subir-lhe as pálpebras, como lhe havia subido a saia. Revelar-lhe o meu enlevo. Goza, goza, enquanto entro, fundo, em ti.

Gravado o meu nome no coração dela, bebi dos seus lábios secretos o sangue que escorria do seu baixo ventre e parti.
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Re: Sangue

Postby Pedro Farinha » 08 Oct 2008 08:23

Fantástico azert, vejo que as tuas leituras do Jack o estripador deixaram-te os dedos afiados.

Em relação às gralhas e mesmo em relação ao uso abusivo dos pronomes, dou-vos toda a razão. Em minha defesa digo apenas que escrevi directamente no Fórum nem passando pelo crivo ortográfico do Word. Um dia disseram-me se tu dedicasses um bocadinho mais de tempo à escrita e te desses ao trabalho de reler o que escreves e de melhorar podias produzir alguma coisa de jeito. Ao que respondi, se eu tivesse um bocadinho mais de tempo não precisava de escrever sobre situações, usava esse tempo para as viver.

(claro que isto já foi há algum tempo e foi uma desculpa que quem, naquela idade, ainda não tinha grande capacidade de encaixe, mas na verdade tenho essa noção ao reler textos escritos, por exemplo, na véspera, que facilmente poderia introduzir uma ou outra melhoria mas já me basta profissionalmente ter de rever trabalhos já feitos e aqui acabo por por o texto como saiu sem paciência para o melhorar)

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Re: Sangue

Postby Thanatos » 08 Oct 2008 10:05

Pedro Farinha wrote:Fantástico azert, vejo que as tuas leituras do Jack o estripador deixaram-te os dedos afiados.

Em relação às gralhas e mesmo em relação ao uso abusivo dos pronomes, dou-vos toda a razão. Em minha defesa digo apenas que escrevi directamente no Fórum nem passando pelo crivo ortográfico do Word. Um dia disseram-me se tu dedicasses um bocadinho mais de tempo à escrita e te desses ao trabalho de reler o que escreves e de melhorar podias produzir alguma coisa de jeito. Ao que respondi, se eu tivesse um bocadinho mais de tempo não precisava de escrever sobre situações, usava esse tempo para as viver.

(claro que isto já foi há algum tempo e foi uma desculpa que quem, naquela idade, ainda não tinha grande capacidade de encaixe, mas na verdade tenho essa noção ao reler textos escritos, por exemplo, na véspera, que facilmente poderia introduzir uma ou outra melhoria mas já me basta profissionalmente ter de rever trabalhos já feitos e aqui acabo por por o texto como saiu sem paciência para o melhorar)



Compreendo bem o que é isso. Muitas vezes existe aquela sensação premente de querer despejar o texto, de ter de contar a história, a situação, criar a personagem enquanto se está de porta aberta para aquele mundo, enquanto conseguimos vislumbrar os traços daquele universo paralelo onde todas as histórias acontecem. E essa urgência é inimiga da perfeição. E quando se termina o relato a exaustão é tal que pouco resta para o burilar do texto.

Curiosamente existem por aí outra classe de "escritores" que funciona ao contrário, i.e. nada tem para contar porque nada está a ver (a tal porta permanece teimosamente fechada) e para compensarem burilam as frases até ao ponto do diamante, retocam daqui, repuxam dali, metem vírgula, ponto de exclamação, periodização, concatenam e no fim fica um daqueles pratos de haute cuisine, muito engraçados, com um raminho de rosmaninho no canto e zero de proteína.

Apesar disso tudo estás a ser modesto Pedro porque já li por aqui (sim, além daqui, também já li outras crónicas tuas noutro blogue) textos muito bons e quase perfeitos. Há também um ponto em que o trabalhar do rascunho inicial tem de parar sob pena de abafarmos a história e trepanarmos as personagens.
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Re: Sangue

Postby Gaminha » 06 Oct 2009 11:01

Muito interessante mesmo. E surpreendente mesmo, ainda não conhecia esta tua faceta. :lol2:
Está intenso, pois na descrição do corte dos mamilos quase me arrepiei. Parabéns.

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Re: Sangue

Postby Pedro Farinha » 06 Oct 2009 19:07

Gaminha wrote:Muito interessante mesmo. E surpreendente mesmo, ainda não conhecia esta tua faceta. :lol2:
Está intenso, pois na descrição do corte dos mamilos quase me arrepiei. Parabéns.


Eu podia mostrar-te mais desta minha faceta... mas depois tinha de te matar.

Na verdade não é algo que eu explore muito. Nos meus textos, mesmo nos que não mostro aqui, a violência é sempre muito mais psicológica que física. Talvez porque é a única que "mexe" comigo.

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Re: Sangue

Postby Lazy Cat » 06 Oct 2009 20:01

A bolinha vermelha ao canto deste texto é o segundo mamilo, arrancado de puxão, que escorregou da mão já ensanguentada. Certo? :tongue:

Também gostei imenso da ideia do Y picotado. É sempre gratificante saber que se está a ajudar os outros no seu trabalho.
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