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O Relógio

Posted: 04 Sep 2006 16:20
by Lyquid
Tic tac tic tac tic tac. E a porra do relógio que teima em fazer avançar o tempo e a manter-me no mesmo lugar, absorto, num sítio só meu em que as paredes parecem reverberar com este som fatidicamente monótono.

Tic tac tic tac tic tac. Continua o silêncio a abraçar este estúpido relógio de parede que nem sei quem comprou, mas que o fez certamente com o propósito de me enlouquecer. Os ponteiros parecem dois maluquinhos a correr um atrás do outro mas que depois de se apanharem não param, uma e outra vez.

Tic tac tic tac tic tac. E o que dizer deste pêndulo maquiavélico que se assemelha tanto a uma guilhotina que mais cedo ou mais tarde se vai soltar da caixa e cortar-me a vida em dois bocados inertes de nada?

Tic tac tic tac tic tac. A espera, sempre a espera de que algo mude, que algo se avolume á minha frente, um vulto, uma mulher, a minha mulher. A mulher que vai parar o tempo, que vai fazer cada minuto valer uma hora, que vai fazer a minha vida parecer um sonho de eternidade.

Tic tac tic tac tic tac. Estou a começar a sentir o sangue ferver-me nas retinas, pisco os olhos de quando em vez só para humeder as lentes o suficiente para continuar a fixar este aparelho-bobo. Como se de olhar para ele ganhasse subitamente o poder de parar o mundo e as vozes humilhantes que nele habitam.

Tic tac tic tac tic tac. Parece que por fim o tempo começa a parar, o ponteiro dos minutos avança mais lento do que o habitual, como um cavalo a quem cortaram o pescoço com uma faca romba e que se esvai em sangue manchando a pista de corridas.

Tic… tac… tic… tac… (silêncio). Finalmente o tempo parou. Finalmente posso sair cá para fora e mostrar-me a um mundo inerte e silencioso.

Tic… tac (silêncio definitivo). Definitivo? E não é que alguém se esqueceu de dar corda á merda do relógio? O mundo continua a girar, jocoso. As pessoas continuam a sair de casa para partilharem connosco as coisas que não queremos ouvir. O meu corpo continua incapaz de acompanhar a minha mente nas minhas deambulações noctívagas em que olho a tua janela, da tua casa, da tua vida, com a tua família, e oiço risos divertidos, risos de quem é feliz, os risos que desaprendi a dar.

Re: O Relógio

Posted: 04 Sep 2006 20:43
by Lazy Cat
Epa, isto é assim a dar para o psicopata... Oo
Mas parti-me a rir com o "Definitivo? E não é que alguém se esqueceu de dar corda á merda do relógio?" lol

Re: O Relógio

Posted: 05 Sep 2006 11:05
by Lyquid
Psicopata? Ora aí está uma coisa que nunca chamaram a um texto meu...

Mesmo assim obrigado (acho eu) pelo comentário Lazy.

Jorge O.

Re: O Relógio

Posted: 05 Sep 2006 15:51
by Lazy Cat
LOL há sempre uma primeira vez =P

Psicopata, no sentido de começar muito bem, muito "normal", mas ao longo do texto as palavras tornam-se cada vez mais agressivas e sangrentas.
Primeiro é monótono, depois vem a lourcura, depois maquiavélico com guilhotinas a cortar bocados... nem o pobre do cavalo se escapa do banho de sangue! E por fim tudo pára, tudo morre, até os risos.
Que tristeza, que escuridão. Acende a luz, pá! =P

Re: O Relógio

Posted: 05 Sep 2006 16:18
by Samwise
A primeira vez que li o texto, não gostei lá muito, mas depois do comentário do "psicopata", resolvi ler com mais atenção, e então já gostei mais.

Gostei sobretudo de algumas imagens que crias com as palavras.

Psicopata não lhe chamaria, mas demente e obsesivo (em doses pequenas) talvez...

Sam

Re: O Relógio

Posted: 05 Sep 2006 16:42
by Lazy Cat
pronto, sou eu que sou exagerada. :biggrin:

Re: O Relógio

Posted: 06 Sep 2006 01:34
by Venom
Samwise wrote:Psicopata não lhe chamaria, mas demente e obsesivo (em doses pequenas) talvez...


Ó Sam porque é que tudo o que seja louco, demente e obsesivo tem que vir, ou ser, em pequenas doses? :mrgreen4nw:

Agora falando do texto. Adorei. Gostei da forma como transmites a loucura do personagem através dos paragrafos, e das coisas que ele imagina. Cinco estrelas :thumbsup: !