A ÚLTIMA ILHA

j.t.parreira
Comic Book
Posts: 169
Joined: 27 Jun 2005 13:00
Location: Aveiro-Portugal
Contact:

A ÚLTIMA ILHA

Postby j.t.parreira » 16 Aug 2014 20:01

“ O que eu quero é ser eu a lutar e a apanhar o meu peixe.”
Ernest Hemingway ( em "Ter ou Não Ter")


Desde que chegara a Angela Street, depois de abandonar a sua própria velhice rotineira na Europa, que saía de casa todas as manhãs muito cedo.
Key West no extremo sul da Florida é o último lugar da América, vai-se para ele como as abelhas saltando de flor em flor.
Ele são algumas “ilhas” até chegar lá, um mar de águas largas, e quase transparentes, mas quando se aporta na cidade, o ar levemente salgado, amarra o forasteiro, como a uma velha escuna.
Quando chegou, na tarde em que Miami ficara para trás, e ainda mais longe o seu país, ainda sentiu uma nostalgia a humedecer-lhe os olhos.
Agora, todas as manhãs, sem pensar já nisso, saía para estar junto do mar. A sua respiração era, como dizer, era marinha.
Isso, percorria as ruas desde a Angela até à William, para ver o que se passava no Schooners Bar, mais para lançar os olhos a alguns veleiros e ganhar ideias , depois descia ao Southermost Point. Voltava pela Whitehead St., porque o seu bar era outro.
Sentava-se, com o gin, uma pedra de gelo que parecia um iceberg, no Green Parrot. Gostava do nome e da sua alusão aos trópicos. Olhava para o copo e parecia-lhe sempre que a rodela de limão era um jangada.
Ia para junto do mar. Era a sua companhia, ia tocar-lhe, sentir as mãos cheias de água do Golfo. Derivava, por vezes, os olhos para o lado da ilha de Cuba, mas a distância era ainda uma névoa imensa.
Todas as manhãs levava blocos e lápis e as notas sucediam-se manuscritas, quem o visse, deveria perguntar-se porque não usava os meios modernos.
Mas o lápis era telúrico, estava ligado ao solo, como se quisesse ter sempre os dedos sujos de carvão. Escrevia com um minério que ainda trazia calor à humanidade.
Todas os dias almoçava e jantava pelos bares da praia, umas vezes na Smathers Beach, outras na Higgs Beach Dog Park. Não dava por viver sozinho.
Embora não o admitisse, esperava, sem nada porém que lhe marcasse a jurisdição da espera. Andava perfeitamente descansado, porque deixava um papel, o mesmo gesto de há anos, pregado na porta: “Estou no Green Parrot, se chegarem sem avisar”.

© J.T.Parreira

Return to “Contos BBdE”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 1 guest