[FIM] 1º Conto BBDE

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Thanatos
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[FIM] 1º Conto BBDE

Postby Thanatos » 18 Feb 2005 15:47

<span style='font-family:Impact'>[size=125]ATENÇÃO: antes de postar aqui confirme a sua inscrição <a href='http://www.bbde.org/index.php?showtopic=351&view=findpost&p=2590' target='_blank'>neste tópico</a>.[/color][/color]

Não se esqueça de fazer "quote" do texto imediatamente antecedente! Boa inspiração! ;)

Neste <a href='http://pwp.netcabo.pt/morphs/bbde.doc' target='_blank'>link</a> está um ficheiro DOC que vai sendo actualizado com as prestações dos vários elementos. Para guardar clique com o botão direito do rato e escolha "Guardar como/Save as".

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Capítulo 1

No dia em que a Catarina morreu uma forte carga de água caiu dos céus transformando a baixa de Lisboa num autêntico lago onde carros, motas, autocarros, pessoas, carrinhos de bebés, pedintes e vendedores ambulantes se atolaram. Os bueiros, há muito por limpar em virtude de Invernos atrás de Invernos sem chuva, transbordaram de água lamacenta à mistura com sacos de plástico, folhas mortas das poucas árvores ainda existentes no Rossio, papéis e, aqui e ali, uma ratazana inchada de morte.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Riobaldo » 18 Feb 2005 22:14

Sara, sentada em frente do televisor onde um jornalista engasgado tentava mostrar a lixeira em que a baixa lisboeta se transformara, travava uma luta interior. Tinha acabado no dia anterior o namoro com Catarina, uma vez que ela não tinha bem a certeza do que queria e parecia mais uma adolescente em busca de aventura que alguém com quem se partilha a vida. Mas tinha-lhe custado terminar assim: é que Sara ainda amava Catarina. Para mais, os dois anos que passaram juntas não são coisa que se esqueça num dia. Mas ela tinha-a magoado mesmo muito. Mas ainda há vinte minutos chorava de raiva devido àquela relação não resultado quando o Miguel telefonou:
- Sara. Eu não sei dizer estas coisas... olha... a Catarina morreu!
- (silêncio)
- Sara? Sara? Estás bem? Queres que vá ter contigo?
- Não, deixa. Quero ficar sozinha.
E desligou. Não percebeu porque é que depois desta notícia as lágrimas lhe pararam de escorrer do rosto. A raiva sumiu-se e com ela as lágrimas. Mas não era suposto chorar pela perda da sua ex-namorada?
E agora, vinte minutos passados do telefonema, sentada em frente da televisão sem ter vertido ainda uma lágrima, Sara equaciona deslocar-se até à capela onde o corpo de Catarina repousa para que se despeçam dela, ou ficar em casa, evitando a confusão que se instalou na cidade. Ficou-se pela segunda: estava frio e chuva e vento e lixo nas ruas. E a casa era muito quentinha. E tinha um DVD para ver que lhe tinham dito ser muito bom. E não ia porque não. E porque não é sempre uma boa razão.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 19 Feb 2005 22:02

E agora, vinte minutos passados do telefonema, sentada em frente da televisão sem ter vertido ainda uma lágrima, Sara equaciona deslocar-se até à capela onde o corpo de Catarina repousa para que se despeçam dela, ou ficar em casa, evitando a confusão que se instalou na cidade. Ficou-se pela segunda: estava frio e chuva e vento e lixo nas ruas. E a casa era muito quentinha. E tinha um DVD para ver que lhe tinham dito ser muito bom. E não ia porque não. E porque não é sempre uma boa razão.


Pegou no DVD e colocou-o no leitor. De seguida, sentou-se no sofá e começou a ver o filme, numa tentativa de esquecer todos os momentos bons que tinha passado com a Catarina, imagens avassaladoras que lhe passavam agora pela mente. Imagens de momentos felizes que agora não passavam de memórías, que Sara só queria esquecer. Agora que a ex-namorada estava morta, não havia outro remédio senão seguir em frente.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby ApoK » 20 Feb 2005 00:43

No dia em que a Catarina morreu uma forte carga de água caiu dos céus transformando a baixa de Lisboa num autêntico lago onde carros, motas, autocarros, pessoas, carrinhos de bebés, pedintes e vendedores ambulantes se atolaram. Os bueiros, há muito por limpar em virtude de Invernos atrás de Invernos sem chuva, transbordaram de água lamacenta à mistura com sacos de plástico, folhas mortas das poucas árvores ainda existentes no Rossio, papéis e, aqui e ali, uma ratazana inchada de morte.

Sara, sentada em frente do televisor onde um jornalista engasgado tentava mostrar a lixeira em que a baixa lisboeta se transformara, travava uma luta interior. Tinha acabado no dia anterior o namoro com Catarina, uma vez que ela não tinha bem a certeza do que queria e parecia mais uma adolescente em busca de aventura que alguém com quem se partilha a vida. Mas tinha-lhe custado terminar assim: é que Sara ainda amava Catarina. Para mais, os dois anos que passaram juntas não são coisa que se esqueça num dia. Mas ela tinha-a magoado mesmo muito. Mas ainda há vinte minutos chorava de raiva devido àquela relação não resultado quando o Miguel telefonou:
- Sara. Eu não sei dizer estas coisas... olha... a Catarina morreu!
- (silêncio)
- Sara? Sara? Estás bem? Queres que vá ter contigo?
- Não, deixa. Quero ficar sozinha.
E desligou. Não percebeu porque é que depois desta notícia as lágrimas lhe pararam de escorrer do rosto. A raiva sumiu-se e com ela as lágrimas. Mas não era suposto chorar pela perda da sua ex-namorada?

E agora, vinte minutos passados do telefonema, sentada em frente da televisão sem ter vertido ainda uma lágrima, Sara equaciona deslocar-se até à capela onde o corpo de Catarina repousa para que se despeçam dela, ou ficar em casa, evitando a confusão que se instalou na cidade. Ficou-se pela segunda: estava frio e chuva e vento e lixo nas ruas. E a casa era muito quentinha. E tinha um DVD para ver que lhe tinham dito ser muito bom. E não ia porque não. E porque não é sempre uma boa razão.

Pegou no DVD e colocou-o no leitor. De seguida, sentou-se no sofá e começou a ver o filme, numa tentativa de esquecer todos os momentos bons que tinha passado com a Catarina, imagens avassaladoras que lhe passavam agora pela mente. Imagens de momentos felizes que agora não passavam de memórias, que Sara só queria esquecer. Agora que a ex-namorada estava morta, não havia outro remédio senão seguir em frente.


Refastelada no seu sofá de couro preto, Sara acabou por se deixar cair num sono profundo. Mergulhou numa tempestade de pesadelos onde se via a si própria emaranhada nos braços de Catarina. O seu subconsciente processava simultaneamente um número absurdo de recordações e o seu corpo respondia com gotas de suor que surgiam das porosidades da sua pele morena. No meio de tanta agitação houve porém um sonho que haveria de recordar durante muito tempo. Sara, de vestido negro e um chapéu com uma pequena renda muito fina da mesma cor que lhe cobria os olhos, percorria uma alameda calcetada por pequenas pedras beges e pretas, ladeada por grandes carvalhos despidos de toda a folhagem e por campas ornamentadas com os mais variados motivos fúnebres. Um pouco adiante, distinguiu uma pequena e velha capela de pedra com grandes portas de ferro abertas para trás em tom convidativo. Enquanto percorria o resto do percurso que a conduzia à entrada do santuário, fortes rajadas de vento levantaram as folhas mortas do chão em danças sinuosas quase lhe arrancando o chapéu, o pó entrou-lhe para os olhos. Apressou-se para o interior da capela num passo cadenciado que fez ecoar no grande cemitério o som proveniente dos seus saltos altos. Ainda olhando para o exterior, contemplando o alvoroço tempestuoso que surgira, levantou a renda que lhe cobria os olhos e afastou o seu cabelo escuro de uma maneira tão sensual que só ela era capaz. Recuou e embateu num obstáculo que lhe travou as longas pernas, virou-se e não conseguiu conter um súbito grito que rapidamente abafou. À sua frente encontrava-se o caixão aberto onde repousava o corpo de Catarina. Avançou por um dos lados da caixa de madeira para poder fitar melhor a sua namorada antes de lhe deixar o último adeus. Ergueu as duas mãos e lentamente as dirigiu para o lenço transparente que cobria a face pálida e arroxeada da defunta, levantando-o cuidadosamente destapou-lhe completamente o rosto. Numa fracção de segundo as portas da capela fecharam-se violenta e estrondosamente, Sara desviou o olhar assustado na sua direcção e ao mesmo tempo sentiu uma mão a agarrar fortemente o seu punho direito, devolveu o olhar a Catarina e ali estava ela de olhos abertos com uma expressão cadavérica. Soltou um grito tão estrídulo e vibrante que se acordou a si própria com o cabelo e o corpo empastado de suor. Encontrava-se de novo na sua sala, sentada no seu sofá, com uma respiração ofegante e a tshirt que colada ao corpo lhe revelava as voluptuosas formas dos seus seios. Relutante em executar algum movimento ou produzir qualquer tipo de som deixou-se ficar petrificada por alguns instantes. A televisão estava ligada mas o ecrã estava completamente preto. Eram quatro da manhã e havia muito que o filme tinha acabado.
<b>"Deixem-me ouvir, uma vez mais, esses sons que foram, durante tanto tempo, a minha consolação e alegria."</b><br />W. A. Mozart - December 5th, 1791

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby acrisalves » 20 Feb 2005 03:37

Refastelada no seu sofá de couro preto, Sara acabou por se deixar cair num sono profundo. Mergulhou numa tempestade de pesadelos onde se via a si própria emaranhada nos braços de Catarina. O seu subconsciente processava simultaneamente um número absurdo de recordações e o seu corpo respondia com gotas de suor que surgiam das porosidades da sua pele morena. No meio de tanta agitação houve porém um sonho que haveria de recordar durante muito tempo. Sara, de vestido negro e um chapéu com uma pequena renda muito fina da mesma cor que lhe cobria os olhos, percorria uma alameda calcetada por pequenas pedras beges e pretas, ladeada por grandes carvalhos despidos de toda a folhagem e por campas ornamentadas com os mais variados motivos fúnebres. Um pouco adiante, distinguiu uma pequena e velha capela de pedra com grandes portas de ferro abertas para trás em tom convidativo. Enquanto percorria o resto do percurso que a conduzia à entrada do santuário, fortes rajadas de vento levantaram as folhas mortas do chão em danças sinuosas quase lhe arrancando o chapéu, o pó entrou-lhe para os olhos. Apressou-se para o interior da capela num passo cadenciado que fez ecoar no grande cemitério o som proveniente dos seus saltos altos. Ainda olhando para o exterior, contemplando o alvoroço tempestuoso que surgira, levantou a renda que lhe cobria os olhos e afastou o seu cabelo escuro de uma maneira tão sensual que só ela era capaz. Recuou e embateu num obstáculo que lhe travou as longas pernas, virou-se e não conseguiu conter um súbito grito que rapidamente abafou. À sua frente encontrava-se o caixão aberto onde repousava o corpo de Catarina. Avançou por um dos lados da caixa de madeira para poder fitar melhor a sua namorada antes de lhe deixar o último adeus. Ergueu as duas mãos e lentamente as dirigiu para o lenço transparente que cobria a face pálida e arroxeada da defunta, levantando-o cuidadosamente destapou-lhe completamente o rosto. Numa fracção de segundo as portas da capela fecharam-se violenta e estrondosamente, Sara desviou o olhar assustado na sua direcção e ao mesmo tempo sentiu uma mão a agarrar fortemente o seu punho direito, devolveu o olhar a Catarina e ali estava ela de olhos abertos com uma expressão cadavérica. Soltou um grito tão estrídulo e vibrante que se acordou a si própria com o cabelo e o corpo empastado de suor. Encontrava-se de novo na sua sala, sentada no seu sofá, com uma respiração ofegante e a tshirt que colada ao corpo lhe revelava as voluptuosas formas dos seus seios. Relutante em executar algum movimento ou produzir qualquer tipo de som deixou-se ficar petrificada por alguns instantes. A televisão estava ligada mas o ecrã estava completamente preto. Eram quatro da manhã e havia muito que o filme tinha acabado.


A cabeça lateja a cada batimento cardíaco, os músculos enrijecidos rejeitam qualquer movimento brusco e o corpo molhado treme... de frio, de cansaço, do tumulto de sensações que parecem gotas de uma chuva impiedosa... Levanta-se, lentamente, e força os pés a rastejarem até ao lavatório - as suas pernas parecem ganhar peso a cada passada. A torneira guinchante faz-se ouvir enquanto lava a cara com a água fria... O mal estar impõe-se. Levanta a cara em direcção ao espelho e nos seus olhos translúcidos vê imagens...tristes, alegres...lembranças de uma vida diferente, distante, agora impossível. Ao toque das gotas salgadas nos lábios entreabertos, os pensamentos hipnotizantes evaporam-se. Arrepia-se. A água escaldante enche a banheira enquanto deixa escorregar a roupa pegajosa até ao chão ladrilhado. O turpor do corpo desaparece, mas Sara move-se mecanicamente, sem pensar... sem querer pensar. Quando finalmente se deita, adormece pesadamente de olhos abertos.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Screams » 21 Feb 2005 12:30

A cabeça lateja a cada batimento cardíaco, os músculos enrijecidos rejeitam qualquer movimento brusco e o corpo molhado treme... de frio, de cansaço, do tumulto de sensações que parecem gotas de uma chuva impiedosa... Levanta-se, lentamente, e força os pés a rastejarem até ao lavatório - as suas pernas parecem ganhar peso a cada passada. A torneira guinchante faz-se ouvir enquanto lava a cara com a água fria... O mal estar impõe-se. Levanta a cara em direcção ao espelho e nos seus olhos translúcidos vê imagens...tristes, alegres...lembranças de uma vida diferente, distante, agora impossível. Ao toque das gotas salgadas nos lábios entreabertos, os pensamentos hipnotizantes evaporam-se. Arrepia-se. A água escaldante enche a banheira enquanto deixa escorregar a roupa pegajosa até ao chão ladrilhado. O turpor do corpo desaparece, mas Sara move-se mecanicamente, sem pensar... sem querer pensar. Quando finalmente se deita, adormece pesadamente de olhos abertos.


Deitada na banheira com a água quente que ainda saía pela torneira a queimar-lhe os pés, Sara acorda do estado de letargia em que se encontrava. Olha em volta e vê o champô que Catarina costumava usar, no lavatório está pousado o frasco do perfume que ela tanto gostava de sentir no seu pescoço e no chão ainda estão algumas roupas dela. Na cabeça de Sara, o turbilhão de lembranças de momentos passados com Catarina continua; os banhos que tomaram juntas naquela banheira, as carícias que trocaram no quarto, as brincadeiras que fizeram na cozinha enquanto cozinhavam… enfim… um conjunto de momentos infinitos, que apesar de querer esquecer não conseguia, ainda amava Catarina. No entanto tinha sido educada para ser forte, os pais sempre lhe disseram que frente a um desafio, constrangimento ou derrota não devia desistir.
Vou dar a volta a isto - decidiu ela - não posso ficar aqui parada e fugir dos problemas como uma criança. Tenho de fazer alguma coisa. Lavou-se, secou o corpo com a toalha de algodão, espalhou creme pelo seu corpo, vestiu-se e meteu dentro de um saco plástico todas as coisas da ex-namorada que foi encontrando espalhadas pela casa. No fim, sentiu-se melhor, claro que as memórias continuavam na sua mente, mas o facto de já não ver as coisas da Catarina fez com que se sentisse mais aliviada. Calçou-se, pegou no saco plástico e abriu a porta de casa disposta a enfrentar a vida de uma forma diferente. Eu sou forte, vou conseguir ultrapassar esta fase! Bateu a porta e rodou a chave na fechadura desceu as escadas e saiu para a rua.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Archie » 21 Feb 2005 16:40

(...) No fim, sentiu-se melhor, claro que as memórias continuavam na sua mente, mas o facto de já não ver as coisas da Catarina fez com que se sentisse mais aliviada. Calçou-se, pegou no saco plástico e abriu a porta de casa disposta a enfrentar a vida de uma forma diferente. Eu sou forte, vou conseguir ultrapassar esta fase! Bateu a porta e rodou a chave na fechadura desceu as escadas e saiu para a rua.


Capítulo 2 - Catarina

Catarina estava deitada. Não lhe apetecia levantar-se da cama. Eram já oito da noite. O que é que iria fazer? Normalmente acordava, tomava um longo banho, vestia-se e ia ter com Sara para jantarem fora. Mas hoje tudo era diferente. Na noite anterior Sara tinha colocado um ponto final no relacionamento. Tinha dito que ela não estava pronta para um compromisso sério. ‘Tretas’, pensou. Queria chorar mas não chorou. Iria achar-se fraca se tal acontecesse. O telefone tocou. Onde, ela não sabia. Tentou seguir o som irritante pelo meio de roupas espalhadas e finalmente o encontrou debaixo de uma camisola de lã. ‘Estou sim? Olá. Sair? Sim, estava mesmo a precisar de um pouco de ar fresco. Ok, Vens-me buscar? Não? Ok, vou ter onde então? Espera, deixa apontar. Ok, nove e meia. Até já.’ Nove em ponto. Catarina desceu. Chegada à rua cruzou-se com Lucrécia. Lucrécia era uma mulher atraente, típica brasileira. Circulavam rumores nas redondezas que Lucrécia era uma daquelas chamadas “garota de programa”. Lucrécia certamente teria conhecimento disso mas parecia não se importar com os comentários alheios. Se todas essas histórias eram verdade ou não, pouco importavam a Catarina. Só lhe interessava que era uma boa empregada de limpeza. “Lucrécia, pode vir amanhã? E por favor deite fora um bacalhau com natas que está no frigorífico. Já não cheira lá muito bem.’ Dirigiu-se ao seu carro, Lexus, preto metalizado, último modelo. Ou, como ela lhe chamava, a ‘banheira preta’. E partiu. Pelo caminho foi-se lembrando da conversa da noite anterior. Passou a Vasco da Gama e dirigia-se para fora de Lisboa. Segundo as indicações estava próxima. Virou no que mais parecia um beco e de repente um estrondo. Um pneu rebentou. ‘Excelente! Tinha que me acontecer agora esta merda!’. Saiu fora do carro e para seu espanto viu cravado na roda dianteira esquerda o que mais parecia a extremidade de um ancinho. E de repente uma pancada forte na sua cabeça. Caiu directamente no chão levando a mão à cabeça. Estava húmido. Sangue certamente. Aos poucos, perdendo os sentidos, viu saíndo das sombras, Miguel.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Thanatos » 21 Feb 2005 22:10

Archie wrote: Saiu fora do carro e para seu espanto viu cravado na roda dianteira esquerda o que mais parecia a extremidade de um ancinho. E de repente uma pancada forte na sua cabeça. Caiu directamente no chão levando a mão à cabeça. Estava húmido. Sangue certamente. Aos poucos, perdendo os sentidos, viu saíndo das sombras, Miguel.

A consciência voltou-lhe como um soluço travado. A primeira sensação que teve foi o latejar intenso da cabeça. A segunda foi a falta de sensação nos pés e nas mãos. Tentou mexer-se mas descobriu que estava atada. Não sabia sequer se tinha os olhos abertos. Tudo era escuro, como breu. Gritou, mas a voz saiu-lhe fina, ligeiramente rouca. Duvidava que fosse suficiententemente forte para ter alertado fosse quem fosse. E então lembrou-se do Miguel. Ele tinha marcado encontro com ela naquele ermo a meio caminho entre o Montijo e Palmela. E... e ela vira-o no momento em que recebera a pancada. Mas que significava aquela charada? Que disparate pegado era este?

Moveu-se novamente tentando perceber onde estava, como estava. Impossível. Os nós apertavam-na firmemente. A dor de cabeça não a deixava pensar. Precisava de se acalmar, raciocinar. Havia ali uma embrulhada qualquer e de nada adiantava lutar contra a maré. Se ao menos tivesse insistido com a Sara... se... se... parecia que toda a sua vida era feita duma sucessão infinita de ses. Raios! E o Miguel? Mas qual era a dele? Teriam sido ciúmes? Ela sabia que ele sempre tivera um fraquinho pela Sara, mas não o via capaz de congeminar tal plano... além do mais... era totalmente descabido agora que elas tinham terminado. Se o problema dele era ela, a partir de ontem tinha a costa livre. Claro que se podia dar o caso de ele ainda não saber do fim da relação delas. E como uma coisa daquelas não se planeia do dia para a noite... calma, Catarina, calma. Estás a ficar paranóica, a andar em círculos. Mas como não podia estar paranóica? Tinha uma puta duma dor de cabeça do tamanho do Cristo Rei, fruto duma pancada. Tinha merecido o direito a ser paranóica. Pelo menos, nem que fosse, só um bocadinho.

Portanto o Miguel congeminara aquele drama de faca e alguidar. E agora? Em que é que isso contribuía para a felicidade dela? Estava exactamente na estaca zero. Senhoras e senhores, tomem os vossos lugares porque o espectáculo está prestes a começar. Fosse o que fosse que acontecesse em breve só podia ser uma melhoria em relação à actual situação.

***

Fora do barracão Miguel fumava Marlboro, atrás de Marlboro. As botas Sancho tinham deixado a terra poeirenta revolta. Sentia-se no ar a electricidade duma chuvada iminente. Era bom sinal. Ia baixar a poeirada. Limpar o ar. Apagar vestigíos do que tinha para fazer. Acendeu novo Marlboro e abriu a bagageira do Lexus. Cobriu-a com os sacos plásticos, tendo especial atenção aos cantos. O Tobias tinha-o avisado: tem cuidado com os cantos, bro. A merda do sangue tem uma maneira especial de escorrer prós cantos.

Prendeu os plásticos com fita isoladora. Por fim inspeccionou o trabalho e dando-se por satisfeito pegou na chave inglesa e dirigiu-se ao barracão. Payback time, bitch! Ahhh, como ele adorava aquelas frases "emprestadas" dos filmes. Dava-lhe uma sensação de irrealidade tão boa... tão leve. Com a mão livre rodou a chave no cadeado, empurrou a porta que gemeu nas calhas ferrugentas e deixou a luz do candeeiro de rua iluminar os olhos assustados da Catarina.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Riobaldo » 22 Feb 2005 01:31

Fora do barracão Miguel fumava Marlboro, atrás de Marlboro. As botas Sancho tinham deixado a terra poeirenta revolta. Sentia-se no ar a electricidade duma chuvada iminente. Era bom sinal. Ia baixar a poeirada. Limpar o ar. Apagar vestigíos do que tinha para fazer. Acendeu novo Marlboro e abriu a bagageira do Lexus. Cobriu-a com os sacos plásticos, tendo especial atenção aos cantos. O Tobias tinha-o avisado: tem cuidado com os cantos, bro. A merda do sangue tem uma maneira especial de escorrer prós cantos.

Prendeu os plásticos com fita isoladora. Por fim inspeccionou o trabalho e dando-se por satisfeito pegou na chave inglesa e dirigiu-se ao barracão. Payback time, bitch! Ahhh, como ele adorava aquelas frases "emprestadas" dos filmes. Dava-lhe uma sensação de irrealidade tão boa... tão leve. Com a mão livre rodou a chave no cadeado, empurrou a porta que gemeu nas calhas ferrugentas e deixou a luz do candeeiro de rua iluminar os olhos assustados da Catarina.


Chegou-se perto de Catarina que, mal vira luz, abrira a boca para gemer uma frase qualquer sem sentido, que pareceu a Miguel exactamente isso. Agarrou-a pelos cabelos e tentou fazê-la por-se de pé: inútil. Ainda estava demasiado fraca para se aguentar, ou tinha demasiada pouca vontade de colaborar. Que se lixe! E agarrando-a por um braço arrastou-a até ao exterior. A custo, conseguiu finalmente enfiá-la na grande bagageira do Lexus, que parecia agora estranhamente ter encolhido. É sempre assim: os espaços são enormes, mas quando queremos guardar lá algo, encolhem só para nos lixar a vida. Mas conseguiu.

Achou por bem dar-lhe mais uma forte pancada na cabeça: um gesto carinhoso, note-se: assim ela não sentiria o desconforto da viagem. (Felizmente ainda há cavalheiros.) Sentou-se ao volante do carro, cujo pneu trocara durante o sono de Catarina, e ligou-o. Ficou a ouvir uma qualquer estação de rádio local enquanto esperava pelo telefone. Segundo o combinado, Tobias estaria a telefonar a qualquer instante. E toda a gente sabe que quando se tem um pensamento destes, logo de seguida toca o telemóvel. E assim foi:
- Miguel? Sim, está tudo pronto. Podes traze-la.
Meteu a primeira e arrancou. E foi conduzindo assim meio sonhador, imaginando as coisas que Tobias tinha preparado para esta ocasião tão especial.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 27 Feb 2005 15:33

Achou por bem dar-lhe mais uma forte pancada na cabeça: um gesto carinhoso, note-se: assim ela não sentiria o desconforto da viagem. (Felizmente ainda há cavalheiros.) Sentou-se ao volante do carro, cujo pneu trocara durante o sono de Catarina, e ligou-o. Ficou a ouvir uma qualquer estação de rádio local enquanto esperava pelo telefone. Segundo o combinado, Tobias estaria a telefonar a qualquer instante. E toda a gente sabe que quando se tem um pensamento destes, logo de seguida toca o telemóvel. E assim foi:
- Miguel? Sim, está tudo pronto. Podes traze-la.
Meteu a primeira e arrancou. E foi conduzindo assim meio sonhador, imaginando as coisas que Tobias tinha preparado para esta ocasião tão especial.


Olhou para o banco do lado que, continha algumas cordas. Conhecia muito bem o seu amigo, bem como a sua tendência para o esquecimento e as cordas eram um elemento essencial, não podiam faltar. E para complementar, resolvera levar mais algum material: algum combustível, alguns pregos, um martelo e fita isoladora. Nada lhe dava mais prazer do que ouvir uma mulher gritar. Sempre achara que as mulheres ficavam com um aspecto mais encantador quando gritavam.
Resolveu voltar à realidade, olhou para a paisagem à volta e viu que ainda estava em pleno Alentejo. Ainda deviam faltar algumas horas para chegar ao Algarve. Mas isso não o preocupava, tinha muito tempo.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby acrisalves » 28 Feb 2005 20:50

Olhou para o banco do lado que, continha algumas cordas. Conhecia muito bem o seu amigo, bem como a sua tendência para o esquecimento e as cordas eram um elemento essencial, não podiam faltar. E para complementar, resolvera levar mais algum material: algum combustível, alguns pregos, um martelo e fita isoladora. Nada lhe dava mais prazer do que ouvir uma mulher gritar. Sempre achara que as mulheres ficavam com um aspecto mais encantador quando gritavam.
Resolveu voltar à realidade, olhou para a paisagem à volta e viu que ainda estava em pleno Alentejo. Ainda deviam faltar algumas horas para chegar ao Algarve. Mas isso não o preocupava, tinha muito tempo.


Encarquilhada e pastada de sangue, Catarina abre os olhos para a escuridão. COnfusa, sente os abalos constantes da estrada velha cujo alcatrão fugia para dar lugar a grande buracos. Qualquer coisa na cara lhe faz comichão, mas não consegue mover as mãos... pernas dormentes, e costas doridas, sente-se desnorteada, perdida, fechada... É possuída pelo pânico e começa a atirar-se para todos os lados, com a pouca força que tem. De repente, fica estática. Lembra-se da pancada na cabeça, do barracão sombrio... do acidente de carro... Tenta compor todas estas lembranças, tenta pensar... mas os esforços não passam de tentativas, pois o medo irracional da clausura sobrepõe-se. Respira cada vez mais depressa... como se estivesse com falta de ar, produzindo um barulho irritante... A sensação de pânico, juntamente com a hiperventilação fazem-na desmaiar outra vez.

Miguel ao volante ouvia Goo Goo Dolls no volume máximo, cantarolando

"And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything feels like the movies
Yeah you bleed just to know you're alive"

Oh yeah ... you'll feel alive... murmura descontraído, contente pelo prémio na bagageira.
Um estrondo faz o carro descontrolar-se, sair da estrada e quase embater num enorme sobreiro.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Archie » 03 Mar 2005 21:06

Miguel sai do carro e depressa entra em pânico. Uma mulher jaz estendida na berma da estrada. Ao lado uma mota semi desfeita ainda a produzir o som ténue do motor. ‘Merda!’ Depressa olhou em redor a ver se alguém tinha visto o acidente mas não. Estavam no meio do Alentejo, de noite. Quem é que iria estar ali? Entretanto o barulho proveniente da mota cessou. Miguel arrastou o corpo inerte da mulher para trás do carro. ‘Que vou fazer agora?’ Pensou… A mulher era de estatura média, porte atlético e morena. Tal como Catarina… E fez-se luz! Miguel colocou-a no banco traseiro, arrastou a mota para fora da estrada e seguiu pelo meio do monte por um caminho que mal se via. Longe da estrada e de olhos alheios parou o carro. Dirigiu-se à mala. Catarina estava inconsciente. Melhor assim. Menos trabalho tinha para lhe tirar a roupa. E assim o fez, cobrindo-a de seguida com uma manta. Lembrou-se! ‘O colar…’ E tirou-o.
De seguida arrastou a mulher para longe do carro e foi buscar o garrafão de combustível. Afinal aquilo sempre ia dar jeito. Despiu-a e deitou gasolina sobre a sua roupa. Pegou nas roupas de Catarina e vestiu a mulher, o que lhe deu algum trabalho. ‘Porra, normalmente elas despem-se…’ Colocou o colar à volta do pescoço da mulher, já frio. Voltou a pegar no garrafão e deitou gasolina sobre o corpo da mulher. O cheiro a gasolina era já insuportável. Sacou dum cigarro, acendeu-o e largou o fósforo observando com deleite a fogueira humana que depressa se formou.


***

Tomé não acreditava no que via. Tinha acabado de montar a rede de periquitos quando se preparava para voltar a casa. Foi aí que viu o Lexus a chegar. Viu um homem a ir à mala. Uma mulher! Nunca tinha visto nada mais estranho. Tentou aproximar-se, lentamente para não revelar a sua presença e viu que a mulher estava amarrada. Num misto de receio e adrenalina aproximou-se mais. O homem agora arrastava outra mulher para longe do carro e voltou para buscar um garrafão. Desapareceu por trás dum outeiro. Sem pensar Tomé dirigiu-se para o carro. Aquela mulher estava em apuros. Por sorte o homem esquecera-se de fechar a mala! A mulher estava inconsciente. E pesada. Com muito custo tirou-a da mala e carregou-a aos ombros para fora dali. O seu carro não estava longe. Colocou-a no 'lugar do morto' e arrancou…
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Samwise » 04 Mar 2005 17:55

Um travo amargo invadiu os pulmões de Miguel, trazendo-o de volta à realidade. A centelha do cigarro chegara ao filtro. Tinha-se distraído a olhar para a fogueira, desejando que a vítima acordasse a meio do acto. Mas não... não houve qualquer grito a não ser na sua imaginação.
Eram onze da noite. Tirou o telemóvel do bolso e ligou para a Sara. Fingiu tristeza ao informá-la da (falsa) morte de Catarina.
Garrafa de gasolina na mão, Miguel voltou para o carro. Na mala... só um cobertor ... a cabra tinha-se pirado. Um erro facilmente corrigível, pensou. Começou a olhar à volta, olhos já habituados ao escuro. Ouviu o ronco de um motor, não muito longe dali, mas não viu luzes. Conseguiu, com alguma dificuldade, distinguir uma nuvem de poeira a afastar-se. Mergulhou no Lexus, rodou a chave e enterrou a bota no pedal. A situação estava fugir-lhe ao controle, tal como a Catarina.
---
A transpiração escorria para dentro dos olhos de Tomé, turvando-lha a visão. A rapariga presa ao assento do lado estava inconsciente. Apesar das nódoas negras que lhe assaltavam a cara, era incrivelmente bela. Os punhos de Tomé espremiam o volante com tal intensidade que, se este fosse feito de laranjas, teria, nesta altura, uma reserva de sumo para o resto do Inverno. Um carro aproximava-se velozmente, de faróis também desligados. Tomé não tinha dúvidas sobre quem poderia ser. O pânico varreu-lhe os pensamentos da cabeça e roubou-lhe qualquer possibilidade de raciocínio. A certeza afirmava-lhe que, com aquele charuto - um Passat modelo de 86 - não conseguiria escapar ao seu perseguidor. Com o Lexus quase a tocar-lhe na traseira, o instinto de Tomé ditou as regras: travou a fundo.
---
Miguel saiu do carro incrédulo. Sentia-se asfixiado pela pujança do airbag. Jactos de fumo cinzento abandonavam o capot, completamente desfeito, do seu carro. O Passat afastava-se lentamente, parecendo zombá-lo, na segurança da noite.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Thanatos » 05 Mar 2005 13:22

Samwise wrote: ---
Miguel saiu do carro incrédulo. Sentia-se asfixiado pela pujança do airbag. Jactos de fumo cinzento abandonavam o capot, completamente desfeito, do seu carro. O Passat afastava-se lentamente, parecendo zombá-lo, na segurança da noite.

Capítulo 3

Tobias tentou a ligação pela enésima vez. Sem resultado! O palhaço do Miguel desligara o telemóvel. Gostava de saber o que ia na cabeça das pessoas para usarem telemóveis e terem-nos sempre desligados. Cambada de anormais! Incompetentes. Se um gajo queria as coisas bem feitas tinha de ser ele próprio a fazer tudo. Lá diz o ditado: quem quer vai, quem não quer manda. E era bem verdade.

Tinha a cave toda preparada: luzes, vídeos, cama, até um CD dos Nine Inch Nails para dar ambiência à coisa. Só faltava mesmo a actriz e o palhaço do Miguel.
Desesperado por ver as horas a passarem saiu para o exterior do solar. A Lua iluminava de tons argênteos a frontaria da casa, um velho solar do século XIX, antiga pertença do Duque de Vilafróis que o perdera para um qualquer agiota por conta do seu vício do jogo. Sentiu o cascalho fresco trilhado debaixo das botas mexicanas. Pegou de novo no telemóvel e marcou o número novamente.

***

Miguel olhou em volta da planície alentejana. Algumas nuvens acastelavam-se encobrindo parcialmente a Lua mas ainda assim conseguiu ver ao longe as luzes de uma habitação. Teria de cortar pela charneca para lá chegar. Só esperava não meter o pé nalguma toca de coelho. Era só mesmo o que lhe faltava ter um tornozelo inchado a uma hora destas e num local destes. Procurou no bolso do casacão o telemóvel e sentiu um calafrio. Perdera-o! Na confusão da perseguição devia tê-lo deixado lá atrás, junto ao corpo da outra gaja que era agora um barbecue. Merda! A noite ia de mal a pior. Era bom que os cabrões lá daquela casa lhe abrissem a porta senão iam ter de se haver com um sacana muito, mas muito, lixado.

***

O Malaquias nem queria acreditar. Logo na sua primeira noite de patrulha daquele mês e dava com um incêndio no mato? O clarão atraíra-o até junto da Nacional 10 na bifurcação para Cuba e que encontrara? Um incêndio que alastrara pelo mato ressequido. Ligara à Central a informar e aguardava a chegada dos bombeiros.
Malditos descuidados. Na certa fora uma beata lançada janela fora. Ai se ele apanhasse alguém a fazer isso. Além da multa ainda lhe aplicaria um valente sermão. Malaquias gostava muito de sermões. Os seus camaradas do Comando diziam que era por ter aquele nome, era uma coisa frenética ou genética ou lá o que era. Enfim, uma coisa que estava na massa do sangue. Tentou avaliar a olho nu a extensão do incêndio. Andou pela berma fora e a certa altura pisou algo que reclamou com o som de plástico quebrado. Focou o feixe da lanterna para o asfalto e viu um telemóvel semi-rachado a seus pés. Estranho. Que havia condutores que aventavam beatas pela janela fora sabia ele, agora telemóveis?

Muito estranho. Voltou ao jipe a buscar um saco de plástico transparente. Estava totalmente imerso a recolher o telemóvel para dentro do saco de plástico, com cuidado para não lhe tocar, nem o esfregar, quando chegou a primeira auto-bomba.

***

Zeb estava preocupado. Já passava das onze e meia e nada dela chegar. Um fino pingente de gelo arrepiou-lhe a espinha. Mas quantas vezes tinha ele dito que não gostava que ela fizesse aquele caminho de noite na mota? Quantas vezes? Tinha uma premonição de que algo acontecera. Ainda não queria tornar esse «algo» em facto concreto. Preferia para já que o «algo» fosse abstracto. Distante. Talvez assim não passasse de mais um «algo» como tantos outros em tantas outras noites.

Destravou a cadeira de rodas e percorreu a pequena distância entre a cozinha e o hall de entrada. Olhou pensativamente para o telefone. Esperaria um pouco mais antes de telefonar para a GNR.

Naquele preciso instante, a quilómetros dali, Sara enche a banheira de água quente e seca as lágrimas que teimam em lhe escorrer pelo rosto abaixo.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 09 Mar 2005 22:00

Naquele preciso instante, a quilómetros dali, Sara enche a banheira de água quente e seca as lágrimas que teimam em lhe escorrer pelo rosto abaixo.


Depois de ter sido inundada por um turbilhão de sentimentos que a fizeram relembrar e sonhar com Catarina, já estava recomposta e, pronta a continuar a sua vida sem a companheira. Decidiu por isso, sair um pouco para apanhar ar, a chuva tinha parado e as ruas já deviam estar mais limpas. E nada melhor do que um passeio para espairecer.
Abriu a porta e deparou-se com uma linda tarde de Setembro, embora ainda se vissem algumas poças de água enormes aqui e ali, e se avistassem no céu algumas nuvens negras a ameaçar estragar aquele pequeno momento de glória do Sol. No entanto Sara arriscou dirigir-se à margem do Tejo para poder observar a água cristalina e sentir melhor a brisa suave do vento.
Depois de cerca de vinte minutos de caminhada pelas ruas ainda enlameadas de Lisboa chegou à beira do Tejo, onde começou a pensar nos acontecimentos que se haviam dado, ela ainda não tinha considerado que o Miguel podia não ter dito a verdade. Procurou afastar essa ideia da memória mas, ficou com o pressentimento de que algo não estava bem, na altura a mágoa levou a melhor mas agora, que estava mais lúcida é que reparava que o voz do Miguel estava estranha, aquando do telefonema, parecia que havia em certo tom irónico na sua voz. Poderia o seu amigo ter-lhe mentido? Estaria Catarina viva? Estava a ficar demasiado confusa, de tal maneira que queria fazer algo mas não sabia o quê.


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