[FIM] 1º Conto BBDE

Alentejo sem Lei
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acrisalves
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby acrisalves » 13 Mar 2005 19:48

Depois de ter sido inundada por um turbilhão de sentimentos que a fizeram relembrar e sonhar com Catarina, já estava recomposta e, pronta a continuar a sua vida sem a companheira. Decidiu por isso, sair um pouco para apanhar ar, a chuva tinha parado e as ruas já deviam estar mais limpas. E nada melhor do que um passeio para espairecer.
Abriu a porta e deparou-se com uma linda tarde de Setembro, embora ainda se vissem algumas poças de água enormes aqui e ali, e se avistassem no céu algumas nuvens negras a ameaçar estragar aquele pequeno momento de glória do Sol. No entanto Sara arriscou dirigir-se à margem do Tejo para poder observar a água cristalina e sentir melhor a brisa suave do vento.
Depois de cerca de vinte minutos de caminhada pelas ruas ainda enlameadas de Lisboa chegou à beira do Tejo, onde começou a pensar nos acontecimentos que se haviam dado, ela ainda não tinha considerado que o Miguel podia não ter dito a verdade. Procurou afastar essa ideia da memória mas, ficou com o pressentimento de que algo não estava bem, na altura a mágoa levou a melhor mas agora, que estava mais lúcida é que reparava que o voz do Miguel estava estranha, aquando do telefonema, parecia que havia em certo tom irónico na sua voz. Poderia o seu amigo ter-lhe mentido? Estaria Catarina viva? Estava a ficar demasiado confusa, de tal maneira que queria fazer algo mas não sabia o quê.


Pegou no telemóvel.."o número que discou não está disponível"... onde estaria Miguel? Agora que já tinha passado algum tempo, Sara estava confusa... um rol de perguntas formulava-se acerca da súbita morte... Olhou para o telemóvel e escolheu o número que tinha jurado esquecer. "Alô?!... Alô?!" - a inesperada voz de Lucrécia fê-la engasgar-se durante alguns segundos.. desligou a chamada... Olha em volta, nervosa... Que está Lucrécia a fazer em casa da Catarina se ela morreu? Parecia tão... descontraída!

*****************************

A campanhia tocou - Zeb suspira de alívio... Vai abrir perguntando-se se ela não teria levado as chaves... Mas não era Cláudia que chegava ... À porta estava um rapaz muito irriquieto. O cheiro forte da gasolina encheu as narinas de Zeb, juntamente com um odor ferroso conhecido - sangue.

*****************************

Tomé, parado na berma da estrada, tenta reanimar Catarina, primeiro com safanões, depois com estalos. Nada a acorda. Vê as horas - já é tarde, o centro de saúde já fechou. Olhou melhor para a desconhecida... parecia ter levado algumas pancadas na cabeça.

*****************************

Tobias, nervoso, pegou nas chaves do carro - onde será que ele se meteu? já cá devia estar... Será que se perdeu? Vou ver se encontro o anormal...

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Archie » 15 Mar 2005 17:09

***

Tomé reparou na traseira do Passat. O carro era robusto…mas toda a robustez não aguenta safanões como aquele carro levou. Não ia conseguir andar muito mais naquele estado.
Sem saber o que fazer Tomé decide conduzir até onde for possível. Com toda aquela correria e a falta de luminosidade perdera a noção de onde estava. Eis que surgem dois pontos luminosos em sentido contrário cada vez maiores. Tomé liga os intermitentes e sai do carro para pedir ajuda. O carro pára e o motorista sai. ‘Por favor ajude-me! Preciso de levar esta mulher com urgência para um hospital e chamar a polícia mas não tenho telemóvel. O meu carro não consegue ir muito mais longe neste estado. Ajude-me!’. O outro condutor, meio perplexo estranhou toda aquela situação. Viu a mulher no lugar do passageiro. ‘Venha, eu levo-vos. Depois explica-me tudo pelo caminho.’ E dirigiram-se para o carro. O coração de Tomé não parava de bater a um ritmo frenético. Nunca imaginara estar um dia numa daquelas situações que até agora só vira no cinema. Mas aquilo tudo era real. ‘Obrigado por nos ajudar. Como se chama?’. O condutor olhou para Tomé pelo retrovisor – ‘Rudolfo’. Rudolfo. Sempre fora um nome que lhe agradara. Tinha um certo ar intelectual. Maldito o dia em que os seus pais se lembraram de lhe dar o nome do cão do vizinho...Tobias.
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Samwise » 15 Mar 2005 18:25

Archie wrote: Sempre fora um nome que lhe agradara. Tinha um certo ar intelectual. Maldito o dia em que os seus pais se lembraram de lhe dar o nome do cão do vizinho...Tobias.

02:50
Zeb abriu a porta. À frente dele um calmeirão com a cara feita num oito gesticulava em aflição.
'Houve um terrível acidente. Preciso de usar o seu telefone. É urgente!!!'
Zeb deu meia volta com a cadeira e dirigiu-se para a sala, preocupado. 'O telefone está aqui... por favor... entre!'.
Miguel entrou na sala e localizou o aparelho. Com um golpe rápido colocou o anfitrião a dormir. Revistou-o e tirou-lhe o telemóvel do bolso do casaco.
Atou a mão direita de Zeb à roda da direita da cadeira. Fez o mesmo com os membros do lado esquerdo. Retirou as meias dos pés gelados do aleijado. Enrolou uma delas e enterrou-a na boca do velho. Utilizou a outra para o amordaçar.
Miguel ficou por momentos a imaginar como seria bom ouvir os gritos do homem se lhe espetasse uma faca nos olhos. Primeiro o dever, pensou. Ligou para o Tobias.

---------

17:32
Sara entrou no apartamento de Catarina. A Lucrécia já não estava. As coisas pareciam não fazer qualquer sentido.
Entrou na sala e olhou à sua volta. Parecia-lhe tudo normal. Dirigiu-se ao quarto. Aquela cama redonda trazia-lhe recordações dolorosas.
Nada fora do sítio... excepto... o quadro na parede... A adaptação modernista de "A Última Ceia de Cristo" estava ligeiramente torta. Ora esta... Sara tirou o quadro da parede. Um cofre! A porta estava encostada... mas aberta...
Catarina nunca lhe revelara este segredo. Abriu a porta, lentamente. O seu queixo caiu.


----------
03:00
Conduzindo com um olho na estrada e outro no retrovisor, Tobias ouviu atentamente a história do rapaz.
'Peço desculpa em interrompê-lo... mas acho que é má ideia levar a rapariga para um Hospital.
Esses tipos vão procurar primeiro nos hospitais das redondezas...'
Tomé apoiava o corpo de Catarina no seu.' O que sugere fazer? Não a consigo acordar e o pulso está muito fraco...'. O cheiro dela (a suor), misturado com um perfume suave, inundáva-lhe as narinas.
'Conheço um médico. É muito meu amigo. Podemos, por agora, ir para minha casa e eu posso pedir-lhe para ver a rapariga. Depois, quando ela acordar, logo decidimos o que fazer. O que acha?'
A Tomé agradava-lhe a sugestão... a ideia de se separar da rapariga que salvara não lhe cabia na cabeça. Para mais, estava a começar a gostar dela de uma maneira especial.
'Onde mora?'
'Não fica longe...' respondeu Tobias. Nem acreditava na sua sorte. O seu telemóvel começou a tocar....
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Thanatos » 15 Mar 2005 23:16

Samwise wrote: (...)
A Tomé agradava-lhe a sugestão... a ideia de se separar da rapariga que salvara não lhe cabia na cabeça. Para mais, estava a começar a gostar dela de uma maneira especial.
'Onde mora?'
'Não fica longe...' respondeu Tobias. Nem acreditava na sua sorte. O seu telemóvel começou a tocar....

“Claro, chefe, de imediato!” – Malaquias pendurou o rádio no gancho e pensou que aquela noite estava a tornar-se demasiado movimentada para seu gosto. Primeiro um incêndio e agora um acidente? E logo na noite em que o parceiro metera baixa? Eram demasiadas coincidências. Aquilo era um teste. Um teste! Só podia ser. Antes de se meter no jipe falou com o chefe dos bombeiros. O incêndio parecia controlado. Acertou os pormenores para mais tarde preencher o relatório da ocorrência tomando notas num pequeno bloco-notas. Depois rumou pela estrada fora. Não demorou muito a encontrar o Lexus. Junto ao carro estava o casal que ligara para o posto a comunicar o sucedido. Pareceram aliviados por o verem chegar. O homem aproximou-se da janela dele gesticulando:
- Senhor guarda! Não há ninguém aqui! Já procurámos no mato e nada.
Malaquias suspirou mentalmente. Provavelmente tinham espezinhado toda a zona do acidente deixando qualquer sinal totalmente irreconhecível. Amadores armados em detectives! Ainda bem que demorara pouco a chegar ali, senão sabe-se lá os danos irreversíveis que teriam causado. Malaquias saiu do jipe adoptando uma postura profissional. Saudou o casal com uma continência perfeita e depois inteirou-se dos factos. O casal ia a caminho de Beja e vira o vulto do Lexus na berma. Devido à hora avançada tinham estranhado um carro ali estacionado e tinham abrandado tendo então verificado que o carro tinha a parte da frente amolgada e os airbags despoletados. Pararam e foram tentar ajudar os ocupantes e foi nessa altura que tinham constatado que não havia ocupante algum no carro. Tinham ido buscar uma lanterna ao carro e tinham percorrido o mato em volta sem resultados. Malaquias assentou os pormenores mais importantes no bloco-notas, tomou nota da identificação e contacto do homem e agradecendo-lhes o civismo disse-lhes que podiam seguir viagem que ele tomaria ocorrência do acidente. Esperou que o casal se pusesse em marcha antes de dar início à averiguação.

Com uma lanterna pesquisou o solo em redor da viatura e depois entrou no carro. Procurou documentos no porta-luvas, no resguardo e nas bolsas laterais. Nada. Pensou pedir a identificação via rádio mas aguardou. Ainda podia ver mais umas coisas. Saiu e foi à traseira do carro. A bagageira estava aberta e o interior forrado a plástico preso com fita isoladora. Que estranho! A luz da bagageira iluminava alguns reflexos. Tocou-lhes ao de leve e sentiu os dedos molhados. Levou-os ao nariz e sentiu o cheiro acre de sangue. O caso estava a ficar muito esquisito. Talvez devesse chamar apoio. Ou talvez não. Malaquias não era estúpido e sabia que o Comando pensava que ele era mais um labrego que via na GNR um emprego certinho onde o ordenado pingava a horas certas, mas ele tinha ambições. Não ia ficar cabo o resto da vida. E se chamasse agora apoio podia muito bem estar a deitar uma oportunidade de ouro pela janela fora. Além do mais que pensara ele há pouco? Que aquilo era um teste. E só podia mesmo ser. Um teste a ele, Malaquias Adalberto, para saber se ele era feito da massa dos melhores! Portanto agora prosseguiria sozinho até ao final. Fosse ele qual fosse. A primeira coisa a fazer era descobrir o paradeiro do condutor. Olhou as cercanias. A charneca estendia-se quase a perder de vista mas num monte viam-se as luzes acesas duma casa. Malaquias sentiu o instinto ditar-lhe que o condutor se dirigira para lá.

Quando ia a meio da distância entre o carro e a casa começaram a cair os primeiros pingos de chuva.

***

Tomé viu Rudolfo pegar no telemóvel e atender. Não querendo parecer indiscreto voltou a atenção para a rapariga. Pareceu-lhe que os olhos se agitavam. Estaria a recobrar os sentidos? O ímpeto súbito da chuva na capota do carro apanhou-o desprevenido. Rudolfo terminou a conversa ao telemóvel, desligou-o e depositou-o no banco ao lado. Virou-se para trás por instantes e sorriu-lhe:
- Ouça lá amigo, sabe onde fica o Casal Moimenta?
- Casal Moimenta? Sim, claro, mas porquê? – Tomé sentiu um arrepio na espinha. O Casal Moimenta era um monte alentejano que ficava… pertíssimo de onde se dera o acidente.
- Deixe lá os porquês comigo, amigo. Diga-me só como faço para lá chegar, está bem?
- Claro, claro! Olhe, ande mais uns mil metros e vai encontrar uma bifurcação à direita. Corte aí.

Tomé ia ter de usar de muita astúcia. Havia ali algo naquela história que não batia nada certo. Mesmo nada. Uma chamada àquela hora da noite. A súbita mudança de planos. Era coincidência a mais. Por algum azar do caneco este gajo estava feito com o outro. Só podia ser. E o raio da moça que nada de acordar. Sempre lhe podia ajudar se ao menos deixasse de ser um peso-morto. Sentiu o suor escorrer gélido pelas costas abaixo mau-grado a chuva fria que fustigava o automóvel.

Não demorou muito a chegar à bifurcação e a seguir pelo caminho de terra batida que a todo o momento ameaçava tornar-se um lamaçal toldante do movimento de qualquer carro abaixo dum todo-o-terreno. Umas centenas de metros mais à frente estava o barracão do Tomé. Agora só tinha de convencer o Rudolfo a parar.
-Espere aí. Mora ali à frente um amigo. Pare lá um momento se faz favor.
- Agora não posso parar. Fala com o seu amigo noutra noite. Diga-me lá como chego daqui ao Casal.
- Mas é isso mesmo! O meu amigo é o caseiro deles. Ele tem as chaves do portão para a herdade.
- Herdade? Fiquei com a ideia que o Casal era um Monte.
- E eu fiquei com a ideia que íamos para sua casa.
- Desculpe lá o mau jeito amigo, mas como reparou eu recebi uma chamada que me alterou os planos. De qualquer maneira a sua amiga poderá ter lá os mesmos cuidados que em minha casa.
- Tem razão, – era melhor tocar pelo compasso dele. – Mas ainda assim precisamos da chave dos portões. O Casal é na realidade uma herdade. A entrada de serviço fica no fim deste caminho.

Rudolfo travou à porta do barracão. Tomé nem lhe deu tempo de pensar duas vezes e saltou do carro. Tinha pena de ter de deixar a rapariga lá dentro do carro mas não tinha muitas alternativas. Bateu à porta e depois gritando para se fazer ouvir por cima do ruído da chuva gritou para o Rudolfo:
- Vou à volta. Deve estar deitado lá atrás e não no ouviu.
Rudolfo acenou-lhe e Tomé deu a volta ao barracão. Nas traseiras meteu a chave à porta e entrou. O som abafado da chuva tamborilando nas placas de estanho do tecto era estranhamente reconfortante. A um canto estava a arca. Levou menos de um minuto a abrir o cadeado e a tirar a caçadeira envolta nos trapos oleosos. Meteu dois cartuchos nos canos e o resto da caixa nos bolsos e abriu a porta da frente do barracão.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Cerridwen » 20 Mar 2005 17:10

Rudolfo travou à porta do barracão. Tomé nem lhe deu tempo de pensar duas vezes e saltou do carro. Tinha pena de ter de deixar a rapariga lá dentro do carro mas não tinha muitas alternativas. Bateu à porta e depois gritando para se fazer ouvir por cima do ruído da chuva gritou para o Rudolfo:
- Vou à volta. Deve estar deitado lá atrás e não no ouviu.
Rudolfo acenou-lhe e Tomé deu a volta ao barracão. Nas traseiras meteu a chave à porta e entrou. O som abafado da chuva tamborilando nas placas de estanho do tecto era estranhamente reconfortante. A um canto estava a arca. Levou menos de um minuto a abrir o cadeado e a tirar a caçadeira envolta nos trapos oleosos. Meteu dois cartuchos nos canos e o resto da caixa nos bolsos e abriu a porta da frente do barracão.



Dirigiu-se ao carro e apontou a arma a Rudolfo.
- Pensava que me enganava? Você está feito com o outro, aquele que deixou a moça neste estado!
- O que está para aí a insinuar? Eu nem sequer a conheço.
- Quer que eu acredite que o facto de o senhor receber um telefonema repentino, e ter de se deslocar exactamente para o Casal Moimenta, tão perto do local onde a encontrei é apenas uma coincidência. Mas a mim não me engana. Saia do carro, imediatamente! – Ao dizer isto sentiu-se mais agitado do que já estava, não queria cometer nenhum crime. Apenas tencionava salvar aquela pobre rapariga.

Rudolfo saiu então do carro, muito devagarinho. O suor já lhe escorria pela face. A situação estava complicada para o seu lado. Tentou então, desesperadamente, conversar com Tomé.

- Não vê o erro que está a cometer? Não sou quem pensa.
- Desapareça, antes que eu….
- Que você o quê? Nunca deve ter pegado numa arma na sua vida. – Estava agora mais calmo, parecia-lhe que Tomé não iria ter coragem para disparar aquela arma.

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby acrisalves » 21 Mar 2005 14:30

Rudolfo saiu então do carro, muito devagarinho. O suor já lhe escorria pela face. A situação estava complicada para o seu lado. Tentou então, desesperadamente, conversar com Tomé.

- Não vê o erro que está a cometer? Não sou quem pensa.
- Desapareça, antes que eu….
- Que você o quê? Nunca deve ter pegado numa arma na sua vida. – Estava agora mais calmo, parecia-lhe que Tomé não iria ter coragem para disparar aquela arma.


Sara repôs o quadro na parede... Senta-se na cama confusa, pensando naquilo que tinha acabado de ver e em Catarina...Não conseguia entender porque Miguel lhe teria mentido àcerca de Catarina... Sempre soubera da atracção que Miguel sentia por ela, mas... agora que tinha terminado com Catarina, não fazia sentido... um arrepio gélido percorre-lhe a coluna quando uma suspeita horripilante lhe invade a consciência. Levanta-se depressa e rapidamente percorre a distância até à porta. Olha para trás, pensando no quadro por detrás do qual se esconde o cofre, e fecha a porta. Desce as escadas correndo e uma vez na rua apanha um taxi para casa do Miguel...

Malaquias apaga os faróis do carro e silenciosamente aproxima-se da casa. Deixa o carro semi-escondido nos arbustos e ve porta entre-aberta.. Malaquias aproxima-se de arma na mão das janelas e espreita acocorado. Vê as costas de uma cadeira de rodas... a pessoa que nela está sentada tem os braços amarrados à roda e a cabeça tombada... Malaquias tira o telemóvel do cinto e disca o número de central. Primeiro toque, segundo toque e sente algo frio a escostar-se na nuca...

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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Samwise » 21 Mar 2005 18:49

acrisalves wrote: Malaquias apaga os faróis do carro e silenciosamente aproxima-se da casa. Deixa o carro semi-escondido nos arbustos e ve porta entre-aberta.. Malaquias aproxima-se de arma na mão das janelas e espreita acocorado. Vê as costas de uma cadeira de rodas... a pessoa que nela está sentada tem os braços amarrados à roda e a cabeça tombada... Malaquias tira o telemóvel do cinto e disca o número de central. Primeiro toque, segundo toque e sente algo frio a escostar-se na nuca...

Os contornos reluzentes da .38 prateada imprimiam ainda uma imagem fresca na cabeça de Sara. A Catarina... da Polícia? As credenciais não deixavam espaço para dúvidas. Os documentos sobre o outro indivíduo também pareciam concludentes... um tipo perigoso. O cadastro incluía pequenos crimes de furto automóvel, quando era jovem, e agressão e violação de várias mulheres ao longo dos últimos anos.
E o Miguel? Qual o seu papel no meio dito tudo? Seria possível? Ele, que parecia tão dócil...

----

Alguém chama por mim. O barulho de uma porta a fechar-se! Ouço um temporal a desabar sobre a capota de um automóvel. Abro os olhos... cinco ou seis planos de imagem dançam à minha frente, num concurso estonteante para ver qual ganha a minha atenção. Com algum esforço tento levantar-me. Consigo à segunda. O espectáculo que vejo à minha frente devolve-me memórias que teimavam em permanecer escondidas. Não consigo distinguir caras... o manancial de água tudo turva.
Abro a porta, devagar, e esgueiro-me para a escuridão. Estou nua. O frio é intenso mas agradável. Sob o abrigo do carro levanto a cabeça, lentamente, e espreito para os dois homens em confronto. O que está de costas para mim avança para o que tem a arma na mão. Este recua, indeciso...

----

'Mais um passo e disparo!' A caçadeira tremia nas mão de Tomé.
'Ah sim? Matar uma pessoa desarmada? Que vergonha! Que acto tão cobarde...'. Tobias avançou lentamente, de mãos levantadas, cada vez mais confiante.
'Estou a avisá-lo... PARE!!!' O indicador de Tomé aplicou mais pressão no gatilho. A mão esquerda parou de tremer e a caçadeira fixou-se no peito de Tobias.
Tobias parou. Conhecia bem os indicadores físicos que precediam um disparo. Inspirou fundo. 'Muito bem... vamos conversar. Está uma rapariga a morrer ali dentro...' Tobias virou-se para o Saab, num gesto indicativo. Foi tudo o que foi preciso para Catarina o reconhecer.

----

Ele...!!! O peixe graúdo...
Sinto as pernas a fugirem-me ao controlo... sinto a escuridão a puxar-me de volta. Mas antes...
Reuno as forças que me restam, pego num calhau - que pesado - e dirijo-me ao Tobias, 'o Bárbaro'. Levanto as mãos acima da cabeça e deixo a pedra cair, com ajuda da gravidade.
Caio no chão, seguindo o corpo dele. Trevas.

----

'Madalberto!!!' Que raio fazes aqui??? Estiveste a ESTA distância de ir desta para melhor...'
'Tomécas??? Baixa lá essa coisa!!! Que susto me pregaste…'
‘As coisas não estão nada bem…' As lágrimas deslizam pela face de Tomé, diluídas na chuva... 'Tenho uma rapariga morta dentro do carro...!'
Movimento dentro de casa. Duas cabeças rodam em sincronia e olham através da janela.

----

Miguel aparece na sala. Traz um balde com água pela borda. Traz também um cutelo e uma faca de cozinha. Despeja o balde contra a cara de Zeb. Este acorda em sobressalto.
'É verdade que voçês não sentem nada da cintura para baixo?' Miguel está em êxtase... ajoelha-se aos pés de Zeb e e começa a acariciar-lhe uma das pernas, junto ao calcanhar... A saliva escorre-lhe para canto do lábio humedecendo a ponta do cigarro ainda por acender.
Levanta o braço direito e trá-lo de volta, num gesto brutal. A resistência do osso, impotente face à pancada do facalhão, fá-lo recordar os seus tempos de talhante aprendiz… Vermelho… Vermelho…

Sam
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Re: [FIM] 1º Conto BBDE

Postby Thanatos » 22 Mar 2005 12:07

Samwise wrote: Miguel aparece na sala. Traz um balde com água pela borda. Traz também um cutelo e uma faca de cozinha. Despeja o balde contra a cara de Zeb. Este acorda em sobressalto.
'É verdade que voçês não sentem nada da cintura para baixo?' Miguel está em êxtase... ajoelha-se aos pés de Zeb e e começa a acariciar-lhe uma das pernas, junto ao calcanhar... A saliva escorre-lhe para canto do lábio humedecendo a ponta do cigarro ainda por acender.
Levanta o braço direito e trá-lo de volta, num gesto brutal. A resistência do osso, impotente face à pancada do facalhão, fá-lo recordar os seus tempos de talhante aprendiz… Vermelho… Vermelho…

O grito lancinante recorta a noite e mesmo por cima do ruído da chuva é suficientemente intenso para despoletar a acção imediata dos dois homens. Como que impelidos por uma mola, Malaquias e Tomé precipitam-se em direcção à porta. Malaquias é o primeiro a entrar e assenta a pistola sobre um homem desgrenhado e com ar de louco que empunha ameaçadoramente um facalhão tingido de sangue:

- Larga já a faca e deita-te no chão! – ordena peremptoriamente. Por detrás dele Tomé irrompe e momentos depois circula para se postar ao lado do homem. Um relance mostra-lhe que Zeb, o velhote paraplégico, recebeu dois cortes que sangram profundamente, um na zona do calcanhar e outro na virilha. Sem pensar Tomé desfecha uma coronhada na cabeça do homem que ainda olhava para os dois com ar aparvalhado. O corpo tomba inerte qual saco de batatas.
- Bolas, Tomé! Não precisavas ter feito isso. Não falta agora ainda vamos ter um juiz à perna por uso de violência desnecessária. Sabes como isto é. – Malaquias parece mais preocupado com o estado de saúde do estranho do que com Zeb, mas Tomé desculpa-o. Ele sempre fora assim, algo confuso nas prioridades. Pelo seu lado Tomé começa a desatar os nós que prendem Zeb. É imperativo estancar a perda de sangue.
- Ouve lá Madalberto arranja aí um cinto ou uma coisa dessas. Temos de fazer um torniquete ao Zeb senão ainda se vai desta para melhor, – e virando-se para este último, - desperta Zeb, aguenta-te aí homem do caraças, ‘tamos aqui p’ra te ajudar! Aguenta só mais um pouco homem!
A noite ruge e entra pela porta escancarada, arrastando consigo os últimos vestígios dum mundo são e ordenado. Tudo é desespero na pequena sala enquanto o tempo escorre inevitavelmente. Muito antes da ambulância conseguir chegar, chamada de urgência pelo Malaquias, Zeb abandona este mundo sem sequer saber que a sua adorada Claúdia o precedeu umas horas antes apenas.
O tenente terminou de recolher os depoimentos do Tomé e do Malaquias e dispensou o primeiro. Depois pediu ao Malaquias para ir com ele até junto do Saab. A equipa forense já terminara a recolha dos vestígios e as fotos, o médico-legista já terminara os preliminares nos corpos e por momentos até a noite se acalmara dando lugar a um vento gélido que abanava das folhas dos sobreiros umas gotas de água por sobre as cabeças dos homens.
- Cabo Malaquias pelo que eu entendi a rapariga deu com uma pedrada na cabeça do tal Rudolfo, certo?
- Sim, meu Tenente!
- E depois?
- Bem, penso que depois foi como o Tomé lhe contou meu Tenente. A rapariga desfaleceu e ele acabou por ter de a meter dentro do carro e ia até ao Casal Moimenta tentar perceber porque raios o tal Rudolfo queria tanto lá ir. E claro, pedir ajuda. Sabe, o Tomé nunca foi homem de usar modernices por isso telemóveis não é com ele.
- Sim, sim, isso já eu percebi. O que eu queria que você me explicasse é como é que uma rapariga que está às portas da morte conseguiu ter forças para matar um homem feito com uma pedra.
- Uma pedrada na cabeça... se apanhar bem o sítio...
- Pois, se apanhar bem o sítio. Entendo. Não vamos complicar as coisas. O tal Miguel também nos há-de contar algumas coisas por certo. Não acha, cabo?
- Sim, meu tenente!
- Pode ir. Está dispensado.
- Certo, meu tenente. – Malaquias afastou-se a pensar que pelos vistos Tomé não lhe contara tudo. O médico-legista anotara pelo menos três pancadas desferidas na cabeça do Rudolfo. E porque ainda pensava nele como Rudolfo? Os documentos diziam ser o Tobias Carvalho e segundo parecia tinha um cadastro do tamanho do braço dele, o que não era de admirar dadas as circunstâncias. Restava esperar que o exame pericial feito com mais cuidado no Hospital não viesse a lançar suspeitas sobre o Tomé. Ia ser do carago se tal acontecesse, ainda para mais depois do Miguel ter sido apreendido com a mandíbula inferior estilhaçada por acção da coronhada. Na volta ainda ia sobrar para eles! O mundo era assim mesmo! Dois inocentes mortos e quem se lixa? O mexilhão, pois claro!
- A propósito cabo Malaquias! – a voz do tenente arrancou-o às meditações e fê-lo estacar. – Aquele tal incêndio, sabe que os bombeiros descobriram um corpo lá no meio? Cá para mim este Miguel andou entretido esta noite.
- É uma rica embrulhada meu tenente!
- Ó lá se é! E com isto tudo daqui a nada é dia e ainda vem para cá uma equipa de reportagem da TVI. Gostava de saber quem avisa aqueles abutres...
- Eu disso não sei nada, meu tenente.
- Claro que não, claro que não...
Ao longe uma luz diáfana tentava romper o manto de nuvens. O chilrear das aves, imperturbadas, começou a fazer-se ouvir na charneca. Era o despontar de um novo dia. E ignorante dos pequenos dramas que se desenrolavam o Sol vai lentamente descrevendo o perene arco da sua viagem pela abóbada.

*

O táxi pára à porta do prédio do Miguel e Sara sai apenas para dar de caras com dois homens que se aproximam vigorosamente dela. Um deles mostra-lhe uma insígnia que ela mal tem tempo de ver e identifica-se como Inspector Martins.
- A senhorita é a Sara?
- Sou sim, - responde ela nervosamente. Aqueles homens ali, logo agora, demasiadas coincidências. Sara não acredita em coincidências, nem destinos nem nada disso. É tipicamente racional e lógica. O pior é que o mundo desde há umas horas atrás que deixou de seguir as linhas-mestras da lógica. – Que se passa? Estou algo cansada... a minha amiga faleceu e...
- É precisamente por isso que aqui estamos e que desejamos falar consigo. Mas aqui não se fizer o favor de nos acompanhar... – e suave mas firmemente pegou-lhe no cotovelo e encaminhou-a na direcção de um carro estacionado. Momentos depois seguiam em direcção à Gomes Freire, o carro afastando o trânsito quase por magia em virtude da luz azul que o outro homem colocara no tejadilho.
O edifício da Polícia Judiciária é tudo menos imponente. Encafuado entre uma faculdade e a esquina duma movimentada rua milhares de pessoas passam por ele diariamente pensando tratar-se meramente dum local onde se renova o bilhete de identidade. Mas depois de se percorrerem os iluminados corredores da aba lateral, descer-se para o subsolo, passar-se por diversas portas blindadas, penetra-se no verdadeiro coração da PJ. Era agora numa sala forrada do tecto ao chão a placas de papelão comprimido e furado que como que engolia todos os sons que a Sara estava sentada. Recusara o café e o cigarro. As mãos tremiam-lhe violentamente. Um acre sabor a bílis vinha-lhe, vezes e vezes sem conta à garganta e as lágrimas teimavam em despontar. Pensar que a Catarina morrera era algo que ela teria tido dificuldade em ultrapassar mas conhecer todos os detalhes mórbidos e ver o corpo dela naquelas fotos. Era demais. Demais. Não pensava conseguir aguentar. E no fim de tudo o Martins dissera-lhe que tinha sido desejo expresso da Catarina de que se lhe acontecesse algo que ela soubesse da verdade. E que lhe guardasse os pertences. Foi assim que Sara ficou a saber que Catarina sempre a amara. Até ao fim. Amara-a tão intensamente. E ela feita estúpida cortara a relação. Era o que mais lhe doía agora. Ter rejeitado aquele amor. Não Ter estado com ela no último dia. Não sabia se a dor alguma vez desapareceria.
Como que numa nuvem ouviu o Martins falar-lhe do psicopata que vendia snuff movies na net e do compincha que lhe «arranjava» as mulheres. Quanto mais o ouvia mais mergulhava num mar negro e profundo de mudez. Estava paralisada perante a profundidade da malícia de uma pessoa que julgara conhecer. Tinha feito apenas um pedido. Mas o Martins dissera-lhe que até ordem em contrário o Miguel ficaria isolado. O interrogatório iria ser demorado e aquelas coisas das pessoas poderem ver os interrogados pelos vidros duma via era coisa só dos filmes e séries de TV. Mas assegurara-lhe que havia material suficiente para enfiá-lo atrás dumas grades para o resto da vida. Mas Sara não estava tão segura disso. Afinal a justiça, diz-se, é cega. Tal como a dor. E a vingança.

*

O funeral foi sóbrio. Apenas alguns familiares distantes de quem Sara nunca tinha ouvido falar. A cada momento descobria facetas ignoradas da vida de Catarina. Como tinha sido possível viver com ela dois anos sem ter conhecimento de todo um mundo de familiares, amigos e companheiros de trabalho? Teria sido ela que a tinha consumido tanto que não lhe dera espaço para a Catarina falar dela? Ser ela? Talvez. Havia tantas incógnitas. Tantas perguntas sem resposta. Os colegas de trabalho tinham vindo dar-lhe os sentimentos. Agradeceu-lhes sem bem lhes fixar os rostos e na sua memória recuou vezes e vezes sem conta aos momentos antecedentes, como um filme em replay eterno: de vestido negro e um chapéu com uma pequena renda muito fina da mesma cor que lhe cobria os olhos, percorreu a alameda calcetada com pequenas pedras beges e pretas, ladeada por grandes carvalhos despidos de toda a folhagem e por campas ornamentadas com os mais variados motivos fúnebres. Um pouco adiante, distinguiu a pequena e velha capela de pedra com grandes portas de ferro abertas para trás em tom convidativo. Enquanto fazia o resto do percurso que a conduziu à entrada da capela, fortes rajadas de vento levantaram as folhas mortas do chão em danças sinuosas quase lhe arrancando o chapéu, o pó a entrar-lhe nos olhos. Apressou-se para o interior da capela num passo cadenciado que fez ecoar no grande cemitério o som proveniente dos seus saltos altos. Ainda olhando para o exterior, contemplando o alvoroço tempestuoso que surgira, levantou a renda que lhe cobria os olhos e afastou o cabelo escuro da maneira tão sensual que era tão sua. Recuou e embateu num obstáculo que lhe travou as longas pernas, virou-se e não conseguiu conter um súbito grito que rapidamente abafou. O caixão aberto onde repousava o corpo de Catarina. Avançou por um dos lados da caixa de madeira para poder fitar melhor a sua namorada antes de lhe deixar o último adeus. Ergueu as duas mãos e lentamente dirigiu-as para o lenço transparente que cobria a face pálida e arroxeada da defunta, levantando-o cuidadosamente, destapou-lhe completamente o rosto.

FIM
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!


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