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Re: 3º Conto BBDE

Posted: 02 Dec 2005 23:30
by anavicenteferreira
Joel sentia-se a flutuar dentro de si próprio. A dor no braço desaparecera. O coração batia-lhe nos ouvidos, nas narinas, no mais fundo do estômago. O seu corpo era um peso que caía, afastando-se de um centro de luz líquida e pensamentos confusos que parecia querer voar para longe de si. A minha alma - a palavra veio-lhe à mente no meio de um turbilhão de ideias mal-definidas e os lábios entreabriram-se-lhe, como se preparasse para a dizer.
Lera alguns textos sobre as crenças religiosas dos antigos habitantes da Terra em que o termo alma era usado repetidamente. Sempre achara tudo aquilo um disparate, mas a sensação que se lhe espalhava pela pele, fluindo de dentro para fora, fazendo-o sentir-se leve, leve, leve… Estava a morrer. Teve a consciência clara disso. E descobriu que não se importava.
Fechou os olhos e deixou-se ir. O coração continuava a latejar-lhe nas têmporas e nas palmas da mão, mas cada vez mais suavemente. Uma grande luz acendeu-se à sua frente. Sorriu.

Leelo sentia-se tonta. O oxigénio do fato que Joel vestira devia estar a acabar. Respirou profundamente várias vezes, tentando mantê-lo vivo. Só mais um pouco, pelo menos até estar em posição de fazer alguma coisa.
A náusea invadia-a como uma onda de orlas geladas. A mão que a segurava ao poste de segurança do porão de carga começou a deslizar.
De repente, sentiu-se invadida por uma lufada de ar fresco, como se tivessem acabado de forçar uma golfada de oxigénio para dentro dos seus pulmões. A mão firmou-se no varão. Acontecera alguma coisa.

A luz envolvera-o e puxara-o para si, fazendo-o cair na escuridão. Sentira movimento à sua volta. São tubarões, pensou, andam tubarões à minha volta. Começou a rir, a rir, a rir, sem conseguir parar, mas não lhe saía som nenhum da garganta.
O fato despareceu. Foram os tubarões, os tubarões estão a comer-me o fato.
O ar invadiu-o. Inspirou gulosamente, forçando os pulmões quase imóveis a funcionarem, deliciando-se com os ruídos sibilantes que lhe saíam da boca e do nariz.
Uma nova luz acendeu-se sobre ele. Uma voz algures à sua esquerda disse:
– Está vivo.

Re: 3º Conto BBDE

Posted: 06 Dec 2005 19:09
by Venom
São tubarões. Joel continuava a rir. Dois individuos apresentavam-se perante ele. O da esquerda baixou-se, abriu a mão, puxou-a atras da cabeça e num movimento suave e limpo... Joel levou um soco.

- Para que foi isso?- perguntou o individuo que se preparava para dar uma estalada a Joel.

- Apeteceu-me....

Joel continuava a rir. Um dos individuos apontou-he uma arma. São tubarões, HAHAHAHAHAHAHAHA, tubarões com armas, HAHAHAHAHAHAHAHAHA. E quando ele se preparava para puxar o gatilho.... a nave em que viajavam foi destruida. A batalha la fora era intensa. A Lusitânia e a sua frota estavam a dar trabalho às da Aliança.

Leelo, ja em segurança, na presença do comandante Kenn Costa, desmaiou.

- Amarra-a a qualquer coisa. Não quero que fuja antes de me responder a certas questões.

- Certo chefe.

Entretanto no outro lado da galaxia...

- Olha olha, o nosso clonezito morreu. Coitado. Cem créditos em como foi com um tiro na testa.

- Aposto em como foi dentro de alguma nave.

- E eu aposto os vossos postos se nao continuam a trabalhar.

- Mas chefe o clone morreu...

- Há sempre mais ...

Re: 3º Conto BBDE

Posted: 21 Dec 2005 18:26
by Samwise
A operação demorara bastante mais tempo do que o doutor Thorn inicialmente imaginara.

A mulher que tinha dado entrada nas urgências da sua clínica cinco horas antes - a que morrera na maca antes mesmo dele a ter podido examinar -, trazia implantes neuronais anómalos, de um género proibido pela confederação galáctica.

O processo de clonagem fora iniciado de imediato, enquanto os impulsos eléctricos do sistema nervoso ainda o permitiam, mas cedo se descobriu que ali jaziam, não uma, mas duas entidades.

Para o doutor Thorn, aquela fora a sua primeira tentativa para reproduzir dois clones a partir de um único hospedeiro. Embora tivesse recebido formação dentro da área, aquele não era, de todo, um procedimento regular.

À sua frente, deitados sobre plataformas de alumínio perfuradas, dormiam em perfeita serenidade dois novos seres, ambos do sexo masculino. Respiravam tenuemente, enquanto milhares de sondas e agentes proteicos lhes percorriam as veias.

- Não se pode ter tudo - murmurou para si próprio, enquanto coçava o topo da cabeça - ao menos estão vivos.

Sam

Re: 3º Conto BBDE

Posted: 29 Dec 2005 12:00
by Archie
- x -

- Comandante! A 'rosa' acordou.
- Óptimo. Vamos.
Percorrendo um longo corredor metálico em direcção a uma porta de plasma ao fundo, Kenn ia pensando no que perguntar a Leelo. O que estava ela a fazer ali, quem era o tal 'Joel' que ela balbuciara enquanto estava meio inconsciente. Chegando à 'porta' viu Leelo a tentar procurar uma saída. Portas de plasma, essa maravilhosa invenção...de fora para dentro não se vê nada...de dentro para fora vê-se tudo...quando colocadas ao contrário proporciona momentos destes. Com uma passagem da sua mão pelo scanner e um piscar de olhos ao scan óptico a porta desapareceu e entraram.
Kenn apontou para uma cadeira:
- Senta-te. Temos muito que conversar.