José Saramago

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Samwise
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Re: José Saramago

Postby Samwise » 17 Jun 2009 22:55

Pedro Farinha wrote:Sam, estive a ler tudo o que se foi dito por aqui. Parei só para vomitar nalgumas partes mas já passou. E, desta vez, concordei com quase tudo o que disseste, mas depois disso dizes que vais acabar de ler aquela bosta ???

Eu tenho sinceramente pena de o ter lido. Hoje quando falo de Saramago tenho de dizer: Saramago é um dos melhores escritores portugueses de todos os tempos (sem dúvida um dos três melhores) mas também foi o autor daquela porcaria que dá pelo nome de Ensaio sobre a lucidez.

Ah, quão feliz seria eu se pudesse omitir o final da última frase. Sam, por respeito ao autor, não acabes de ler essa coisa.



O livro não é assim tão mau. O que é mau é o facto de ter sido o Saramago a escrevê-lo, já que está muito aquém dos raciocínios lógicos que lhe conhecemos de outras obras - e porventura daquilo que o torna tão único como autor. O sentimento que passa é de "desperdício" e um pouco de auto-indulgência, ao explorar os caminhos inicialmente escolhidos, mal escolhidos, até ao fim. Parece um Saramago a brincar às coisas sérias.

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Re: José Saramago

Postby Samwise » 17 Jun 2009 22:56

azert wrote:
annawen wrote:Eu ia escrever precisamente o que a azert escreveu, só que ela adiantou-se. As violações não estão só relacionadas com o sexo mas sim, e acima de tudo, com uma estrutura de poder. Não é por acaso que Saramago mete o verdadeiro cego como chefe da situação. Nada de mais lógico. Numa situação fechada, a primeira coisa que aparece é uma tentativa de hierarquização. Quem tem o poder e quem não tem. Isto torna-se ainda mais premente numa situação em que a civilização falha completamente. Aquele bunker representa uma micro sociedade onde impera a lei do mais forte. O que Saramago quer dizer é que quando a civilização desaparece as relações humanas regressam à sua verdadeira essência, que é a necessidade de restabelecer a ordem através da violência. Tornar mais definido o papel de cada um na nova sociedade: quem é senhor e quem é escravo.

Uma situação semelhante acontece no "Senhor das Moscas". Aliás a premissa é a mesma.

A anarquia verdadeira só acontece quando eles saem do bunker.

Para mim esta interpretação é muito clara, e foi colocada de uma maneira extraordinária pelo autor. As violações não são supérfluas, nada no livro é supérfluo. Elas existem porque o quem detém o poder tem sempre medo de ficar sem ele. É através das violações constantes que os senhores dizem aos outros quem manda.

O caso da "Estrada" é diferente porque o cenário é muito mais lato. Praticamente não nos apercebemos das comunidades humanas. Sabemos que elas existem mas não as vemos a funcionar. O grande tema da "Estrada", para mim, é o ser humano perante a destruição da natureza. Que sentido faz continuar a viver sem a natureza.


Eu posso ter-me adiantado, mas tu apresentaste a ideia de forma muitíssimo mais completa.

N' "A estrada", de facto, não vemos o funcionamento das comunidades por dentro, apenas assistimos ao encontro das personagens com elas.


Muito bem exposto. :smile:

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Re: José Saramago

Postby Pedro Farinha » 17 Jun 2009 23:17

Se calhar vou escrever aqui uma coisa com que ninguém concorda. Mas para mim, para além de outras coisas mais óbvias, a maior diferença entre o Ensaio e a Estrada, é que o Ensaio é um livro que nos diz que face ao abalo da nossa sociedade a tendência é voltarmos para o lado mais animalesco - é o portanto um livro pessimista. Enquanto que a Estrada é um livro de esperança, de não desistência, de se manterem na Estrada a caminharem para o sul sempre acreditando que um dia haviam de chegar a um lugar melhor.

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Re: José Saramago

Postby azert » 17 Jun 2009 23:22

Pois olha, eu concordo. Desiludido? :devil:
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Re: José Saramago

Postby Pedro Farinha » 17 Jun 2009 23:28

De forma alguma carazert, apenas porque uma vez eu disse que a Estrada era um livro de esperança e perguntaram-me o que eu andava a por dentro de mim.... estava À espera de comentários similares aqui.

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Re: José Saramago

Postby azert » 17 Jun 2009 23:32

A personagem do filho mais não é do que optimismo em estado puro.
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Re: José Saramago

Postby annawen » 18 Jun 2009 00:14

Desculpa, Pedro mas eu não lhe chamaria um livro optimista. De maneira nenhuma. Concordo com a azert em relação à figura do filho. Mas o que uma personagem pensa não é necessariamente o que pensa o autor. O fim do livro é ambíguo, sem dúvida. Podemos ver nele uma esperança, se quisermos mas faço esta pergunta: o que irá acontecer ao rapaz, depois da comida acabar? Ao rapaz e aos outros todos? Mesmo aos canibais? Não vejo esperança aqui, só um conforto momentâneo.

P.S. Já estava com saudades de discutir livros. :smile:

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Re: José Saramago

Postby Pedro Farinha » 18 Jun 2009 08:04

Obviamente que a história irá acabar mal - o mundo está destruído.

E eu não lhe chamei de optimista, mas sim de esperança. O que eu senti ao ler o livro, foi que mesmo numa situação terrível existe um não baixar os braços, o facto de se saber que existe alguém que depende de nós, no caso o filho do pai, força o pai a manter-se vivo, determinado e de alguma forma a incutir esperança no filho.

Essa é a parte que eu considero de esperança.

Porque, na minha opinião, é nestas situações limite que nós mostramos quem realmente somos. Se nos entregamos oa desespero, se nos animalizamos ou se mantemos a nossa dignidade. aliás desse ponto de vista a mulher do primeiro cego, no Ensaio, é também uma mulher de uma solidariedade e força espantosa. Só que não há esperança, apenas um grupo que se mantém unido a tentar sobreviver.

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Re: José Saramago

Postby Tzimbi » 18 Jun 2009 09:04

Discordo em absoluto, Pedro, A Estrada é tudo menos um livro de esperança. O que tu interpretas como esperança, o facto de o pai lutar constantemente pela sobrevivência do filho, eu chamo-lhe instinto paternal/maternal. Não me parece que o próprio pai sinta alguma esperança, mas como qualquer bom pai não pode transmitir o desespero que sente, tem de ser mais forte do que possivelmente seria se não tivesse o filho com ele.

S.

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Re: José Saramago

Postby grayfox » 18 Jun 2009 09:45

eu concordo com o pedro, mas já sei que a minha opinião do livro é muito ostracizada por estes lados :lol2:
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Re: José Saramago

Postby Dharma » 18 Jun 2009 14:59

Tzimbi wrote:Discordo em absoluto, Pedro, A Estrada é tudo menos um livro de esperança. O que tu interpretas como esperança, o facto de o pai lutar constantemente pela sobrevivência do filho, eu chamo-lhe instinto paternal/maternal. Não me parece que o próprio pai sinta alguma esperança, mas como qualquer bom pai não pode transmitir o desespero que sente, tem de ser mais forte do que possivelmente seria se não tivesse o filho com ele.

S.


O pai não tem qualquer esperança, até aí concordo, mas a verdade é que o filho no fim acabou por ser salvo, por isso a esperança mantém-se viva. Ele não "fechou" o livro, portanto ficamos sempre com a sensação de que afinal a situação pode melhorar - pelo menos foi a sensação com que fiquei.

O livro em si não o achei optimista, mas o final sim - pouco, mas sim.
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Re: José Saramago

Postby Pedro Farinha » 18 Jun 2009 19:14

Tzimbi wrote:Discordo em absoluto, Pedro, A Estrada é tudo menos um livro de esperança. O que tu interpretas como esperança, o facto de o pai lutar constantemente pela sobrevivência do filho, eu chamo-lhe instinto paternal/maternal. Não me parece que o próprio pai sinta alguma esperança, mas como qualquer bom pai não pode transmitir o desespero que sente, tem de ser mais forte do que possivelmente seria se não tivesse o filho com ele.

S.


E tu que não discordasses. Eu não disse que o pai tinha esperança, disse que era um livro de esperança pois demonstra que mesmo nas piores situações enquanto nos preocuparmo-nos com alguém, saberemos encontrar forças para lutar.

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Re: José Saramago

Postby Samwise » 30 Jun 2009 23:30

Agora já estou a gostar do Ensaio Sobre a Lucidez.

Depois de umas primeiras 50 páginas que quase me levaram à desistência, volvidas mais 150 e diria que não só não é tão mau quanto inicialmente julguei, como até é um bom livro. Não está à altura dos grandes dele, e peca um bom bocado na importância que Saramago de vez em quando dedica a si próprio, ao narrador, mas vale bem a pena o esforço. Estou a entrar na parte em que os personagens do Ensaio Sobre a Cegueira entram na história. Estou a achar a exploração de alguma situações muito bem feita. As reuniões do governo estão mesmo no ponto certo.

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Re: José Saramago

Postby systematakada » 18 Jul 2009 12:33

Eu também gostei do Ensaio sobre a Lucidez, apesar de perceber que se não tivesse interesse em entender ideias políticas que seria muito mais difícil para mim gostar.
Este livro é uma autêntica crítica aos governos, mostrando que um governo que supostamente nos protege, em dadas alturas é capaz de fazer exactamente o contrário para seu próprio interesse, mesmo que não tenha razão, criando muito facilmente uma ditadura numa sociedade democrática.
E, ao mesmo tempo, Saramago cria uma sociedade anárquica contrária aos nossos pre-conceitos de anarquia, em que a ordem é possível porque toda a gente pensa de uma forma lucida, ninguém se deixa enganar nem se criam hierarquias, e todos cooperam para viverem melhor, contrariando totalmente a parte selvática do homem que se vê no Ensaio sobre a Cegueira.

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Re: José Saramago

Postby Anibunny » 25 Jul 2009 17:30

Estou quase a acabar "As intermitências da morte", pensei que fosse pior, pensei que não ia perceber nada, mas no fim a escrita de Saramago não é nenhum bicho de sete cabeças. Ainda faltam algumas paginas para dizer se amei o livro, devido ao cansaço da noite quando lia o livro, houve períodos em que achei [SPOILER]que havia demasiados elementos e crítica política, contudo quando aparece a personagem morte [/SPOILER] a história passou a ser bem mais interessante!:) Agora uma pausa de livros complicados (porque quem lê Saramago para have fun ou é louco ou mazoquista e eu não sou nenhuma das duas) e fico à espera do "Alice in Wonderland" mas de vez em quando faz bem ler assim uns livritos estilo Saramago :friends:


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