noite
Num mundo em que o altruismo se tornou tabu, é ridículo criar espectativas. O tempo voa, as pessoas correm sem direção nem sentido, tudo roda e rebola por ruas infindas, passando ao lado ou por cima dos sentimentos que estagnaram algures nas barras cronológicas.
"Nem os cães se ouvem, os ruídos tornam-se imparáveis, e debaixo das mantas quentinhas, tremo como se estivesse lá fora abandonada ao vento..."
Somos ainda, apenas humanos, mas no fim do dia espanta-me sempre a ausência a meu lado. Há muito que não te conheço como meu. Há muito que os sentimentos se foram, e no entanto, como hoje, o vazio parece não ser normal. Sou apenas humana, e talvez pela pequenez dessa condição me vá resignando as lembranças com que me deixaste.
"O abraço da cama morna, a companhia de uma luz insegura e a chuva que ruge."
No vazio dos dias repletos de grandes nadas, os meus sofreres são palhaços que me mantêm a cabeça no lugar, vou-me rindo, vou chorando, e as horas desaparecem sem as chegar a ver. Dúvidas de uma existência banal mas que no fundo ninguém conhece. Saber-me diferente mas encontrar-me espelhada em tanta gente.
"Solidão não serve para definir este momento, abandono, angústia, medo de apagar a luz e deixar-me dormir. E se a chuva me encontra?"
Somos peões num tabuleiro de xadrez? Que deus é esse que se esquece de nós para ir fumar um cigarro? E nós ficamos ali? imóveis? Mal desviando o olhar para o vizinho do lado? Tabuleiro gigante esse, onde um passo pode levar meses a ser concluído. Ou é esse teu deus pupilo de Kasparov e pensa cada movimento com a paciência de quem aguarda o crescimento de uma planta? Como se a solução lhe fosse chegar a qualquer momento, do sítio que ele menos espera. Ou será uma ela? Ser de cérebro complexo, indecisa e insegura?
"Como desejo que o dia chegue..."
És quase tão ingénuo como eu quando acreditei nos para sempre que fui ouvindo.
"Pára, por favor. Deixa-me dormir, hoje que estou só, deixa-me. Larga-me as cobertas e não apagues a luz. Enclausurada na minha própria cabeça, onde ninguém chega, onde nada me atinge, onde a chuva não me encontra e não te apaga em mim."
E pareço ridícula, até aos meus olhos. Mas a minha indiferença supera-me os sentidos e sigo para mais um dia de procuras incessantes. Porque o mundo continua na sua vidinha ridícula, e o tempo regozija-se com os movimentos regulares dos seus olhos. Aqueles redondos que nos vigiam e nos controlam os dias.
"E a chuva que não desiste, se ao menos tu fosses tão persistente como ela..."
E nos dias de solidão, atrevo-me a procurar um ombro que me aconchegue. Qualquer ombro, qualquer conversa, qualquer coisa que me afaste um pouco de mim.


